Quarta-feira, Novembro 11, 2009
Terça-feira, Novembro 10, 2009
ADELANTE UNASUR, ALBA Y LA UNION DE PUEBLOS DE LATINOAMERICA
►Zé Celso: Lula faz política culta e com arte.
No mesmo dia em que Caetano fazia sua entrevista de capa, muito bela como sempre, no Caderno 2 do Estadão, o Ministro Ecologista Juca Ferreira publicava uma matéria na Folha na seção Debates. Um texto extraordinariamente bem escrito em torno da cultura, como estratégia, iniciada no 1º Governo de Lula ao nomear corajosa e muito sabiamente Gilberto Gil como Ministro da Cultura e hoje consolidada na gestão atual do Ministro Juca.
Por José Celso Martinez Corrêa
Hoje temos pela primeira vez na nossa história um corpo concreto de potencialização da cultura brazyleira: o Ministério da Cultura, e isso seu atual Ministro soube muito bem fazer, um CQD em seu texto.
Por outro lado, meu adorado Poeta Caetano, como sempre, me surpreendeu na sua interpretação de Lula como analfabeto, de fala cafajeste, abrindo seu voto para Marina Silva.
Nós temos muitas vezes interpretações até gêmeas, mas acho caetanamente bonito nestes tempos de invenção da democracia brazyleira, que surjam perspectivas opostas, mesmo dentro deste movimento que acredito que pulsa mais forte que nunca no mundo todo, a Tropicália.
Percebi isso ao prefaciar a tradução em português crioulo = brazyleiro do melhor livro, na minha perspectiva, claro, escrito sobre a Tropicália: Brutality Garden, Jardim Brutalidade, de Chris Dunn, professor de literatura Brazyleira, na Tulane University de New Orleans.
Acho, diferentemente de Caetano, que temos em Lula o primeiro presidente antropófago brazyleiro, aliás Lula é nascido em Caetés, nas regiões onde foi devorado por índios analfabetos o Bispo Sardinha que, segundo o poeta maior da Tropicália, Oswald de Andrade, é a gênese da história do Brazil. Não é o quadro de Pedro Américo com a 1ª Missa a imagem fundadora de nossa nação, mas a da devoração que ninguém ainda conseguiu pintar.
Lula começou por surpreender a todos quando, passando por cima das pressões da política cultural da esquerda ressentida, prometeica, nomeou o Antropófago Gilberto Gil para Ministro da Cultura e Celso Amorim, que era macaca de Emilinha Borba, para o Ministério das Relações Exteriores, Marina Silva para o Meio Ambiente e tanta gente que tem conquistado vitórias, avanços para o Brasil, pelo exercício de seu poder-phoder humano, mais que humano.
Phoderes que têm de sambar pra driblar a máquina perversa oligárquica, podre, do Estado brasileiro. Um estado oligárquico de fato, dentro de um Estado Republicano ainda não conquistado para a "res pública". Tudo dentro de um futebol democrático admirável de cintura. Lula não pára de carnavalizar, de antropofagiar, pro País não parar de sambar, usando as próprias oligarquias.
Lula tem phala e sabedoria carnavalesca nas artérias, tem dado entrevistas maravilhosas, onde inverte, carnavaliza totalmente o senso comum do rebanho. Por exemplo, quando convoca os jornalistas da Folha de S. Paulo a desobedecer seus editores e ouvir, transmitindo ao vivo a phala do povo. A interpretação da editoria é a do jornal e não a da liberdade do jornalista. Aí , quando liberta o jornalista da submissão ao dono do jornal, é acusado de ser contra a liberdade de expressão. Brilha Maquiavel, quando aceita aliança com Judas, como Dionísios que casa-se com a própria responsável por seu assassinato como Minotauro, Ariadne. É realmente um transformador do Tabu em Totem e de uma eloquência amor-humor tão bela quanto a do próprio Caetano.
Essa sabedoria filosófica reflete-se na revolução cultural internacional que Lula criou com Celso Amorim e Gil, para a política internacional. O Brasil inaugurou uma política de solidariedade internacional. Não aceita a lógica da vendetta, da ameaça, da retaliação. Propõe o diálogo com todos os diabos, santos, mortais, tendo certa ojeriza pelos filisteus como ele mesmo diz. Adoro ouvir Lula falar, principalmente em direto com o público como num teatro grego. É um de nossos maiores atores. Mais que alfabetizado na batucada da vida, lula é um intérprete dela: a vida, o que é muito mais importante que o letrismo. Quantos eruditos analfabetos não sabem ler os fenômenos da escrita viva do mundo diante de seus olhos?
Eu abro meu voto para a linha que vem de Getúlio, de Brizola, de Lula: Dilma, apesar de achar que está marcando em não enxergar, nisto se parece com Caetano, a importância do Ministério da Cultura no Governo Lula. Nos 5 dedos da mão em que aponta suas metas, precisa saber mais das coisas, e incluir o binômio Cultura & Educação.
Quanto a Marina Silva, quando eu soube que se diz criacionista, portanto contra a descriminalização do aborto e da pesquisa com células-tronco, pobre de mim, chumbado por um enfarte grave, sonhando com um coração novo, deixei de sequer imaginar votar nela. Fiz até uma cena na Estrela Brasyleira a Vagar - Cacilda!! para uma personagem, de uma atriz jovem contemporânea que quer encarnar Cacilda Becker hoje, defendendo este programa tétrico.
Gosto muito de Dilma, como de Caetano, onde vou além do amar, vou pra Adoração, a Santa adorada dos deuses. Acho a afetividade a categoria política mais importante desta era de mudanças. "Amor Ordem e Progresso." O amor guilhotinado de nossa bandeira virou um lema Carandiru: Ordem e Progresso, só.
Apreendi no livro de Chris Dunn que os americanos chamam esta categoria de laços homossociais, sem conotação direta com o homoerotismo, e sim com o amor a coisas comuns a todos, como a sagração da natureza, a liberdade e a paixão pelo amor energia, santíssima eletricidade. Sinto que nessas duas pessoas de que gosto muito, Caetano e Dilma, as fichas da importância cultural estratégica, concreta, da Arte e da Cultura, do governo Lula, ainda não caíram.
A própria pessoa de Lula é culta, apesar de não gostar, ainda, de ler. Acho que quando tiver férias da Presidência vai dedicar-se a estudar e apreender mais do que já sabe em muitas línguas. Até hoje ele não pisou no Oficina. Desejo muito ter este maravilhoso ator vendo nossos espetáculos. Lula chega à hierarquia máxima do teatro, a que corresponde ao papa no catolicismo: o palhaço. Tem a extrema sabedoria de saber rir de si mesmo. Lula é um escândalo permanente para a mente moralista do rebanho. Um cultivador da vida, muito sabido, esperto. Não é à toa que Obama o considera o político mais popular do mundo.
Caetano vai de Marina, eu vou de Dilma. Sei que como Lula ela também sente a poesia de Caetano, como todos nós, pois vem tocada pelo valor da criação divina dos brazyleiros. Essa "estasia", Amor-Humor, na Arte, que resulta em sabedoria de viver do brasileiro: Vida de Artista. Não há melhor coisa que exista!
Lula faz política culta e com arte. Sabe que a cultura de sobrevivência do povo brasileiro não é super, é infra estrutura. Caetano sabe disso, é uma imensa raiz antenada no rizoma da cultura atual brazyleira renascente de novo, dentro de nós todos mestiços brazyleiros. Fico grato a Caetano ter me proporcionado expor assim tudo que eu sinto do que estamos vivendo aqui agora no Brasil, que hoje é um país de poesia de exportação como sonhava Oswald de Andrade, que no Pau Brasil, o livro mais sofisticado, sem igual brazyleiro canta:
"Vício na fala
Pra dizerem milho dizem mio
Pra melhor, dizem mió
Para telha, dizem teia
Para telhado, dizem teiado
E vão fazendo telhado"
SamPã, 6 de novembro, sob o signo de escorpião, sexo da cabeça aos pés, minha Lua de Ariano, evoéros!
Fonte: O Estado de S.Paulo
Leia também:
►Caetano se explica: Lula é "analfabeto" mas "brilhante"
►Lula: “Política exige mais inteligência que conhecimento”
Leer más
Leer más
Leer más
►Evo Morales favorito a un mes de las elecciones

![]()
presidente Evo Morales
"Y Evo no se pierde en los profundos senderos de la soberbia y saca el arma que solo los grandes en la victoria son capaces de tener: la humildad."
(Hugo Moldiz)
►Industrialización del litio requiere de tiempo, inversiones, conciencia social y voluntad política
YVKE Mundial
de la MANO con el PUEBLO

►Mercosul
Oposição brasileira é pior do que a da Venezuela, reage líder
Jobim: "Brasil fala com quem entende que deve falar"
►Lula volta a defender transformação de programas sociais em leis
►Série da Caros Amigos traz biografia de 24 cientistas brasileiros
►América Latina: ''O isolamento regional está em declive''
►Honduras: A vitória do "Poder Inteligente" dos EUA
Sorrentino: Projetos para o Brasil
►Coerência, coragem, firmeza

►Mundo
►Conocimiento Libre
"El desarrollo tecnológico nunca es neutral"

►Mentiras y medios
Ciro Enrique Hernández Rodríguez
►Europa
Editorial de La Jornada
Cira Rodríguez César

Ortega denuncia perigo de bases militares dos EUA na Colômbia
Managua (Prensa Latina) O presidente da Nicarágua, Daniel Ortega, denunciou nesta segunda o perigo que representam as bases militares estadunidenses na Colômbia para a soberania desse povo e de toda América Latina.... Leia Mais
Muro de Berlim: 223 mortos. Muro que separa os EUA do México: 5,6 mil mortos
No aniversário de 20 anos da queda do Muro de Berlim, o mundo convive com uma série de barreiras que servem para conter a livre circulação de pessoas. O muro que divide a Cisjordânia de Israel e o que impede a passagem de imigrantes mexic... Leia Mais

5,6 mil pessoas morreram no muro Mexico, EUA
Uma nova Honduras?
Há duas semanas, foi tornado público o conteúdo de um email de um pecuarista chileno de nome Avilés, residente no Paraguai há mais de 30 anos, que propõe a arrecadação de uma contribuição financeira entre seus pares empresar... Leia Mais

►URGENTE: LULA LE ADVIERTE A OBAMA QUE RETIRE PROYECTO DE BASES EN COLOMBIA Y SE OCUPE DE SUS DROGADICTOS NORTEAMERICANOS
ANSALATINA"NO NECESITAMOS BASES", ADVIRTIO LULA A OBAMA
El presidente de Brasil, Luiz Lula da Silva, advirtió a su par estadounidense, Barack Obama, que América del Sur "no necesita bases norteamericanas" en Colombia para combatir al narcotráfico y le propuso "ocuparse de los consumidores de drogas" en su país.
"Querido compañero Obama: no necesitamos de las bases americanas en Colombia para combatir el narcotráfico en América del Sur. Nosotros vamos a ocuparnos de combatir el narcotráfico en América del Sur, en nuestras fronteras, y tu debes ocuparte de tus consumidores. Así el mundo queda mejor", afirmó Lula.
El mandatario se refirió al acuerdo entre Colombia y Estados Unidos para la utilización por parte de militares norteamericanos de siete bases colombianas para combatir el narcotráfico, durante un extenso discurso en el 12 Congreso del Partido Comunista de Brasil (PCdoB), aliado a su gobierno, en San Pablo.
Lula, un crítico de ese tratado entre los presidentes Obama y Alvaro Uribe, destacó el rol de la Unión Sudamericana de Naciones (Unasur), espacio en el que dijo se conformó el Consejo de Defensa Sudamericano. "Ahora queremos formar el Consejo de Combate al Narcotráfico desde la Unasur".
Para Lula, el rol de Brasil en América Latina y en la Unasur en particular no debe ser visto como una aspiración hegemónica de la principal economía de la región.
"Brasil no debe comportarse como si tuviera hegemonía. Debe ser el mayor símbolo de la unidad en el Unasur, el compañero más viejo, el que tiene capacidad de trabajar para unir, para componer el diálogo", afirmó el presidente.
Lula dijo que uno de los más importantes instrumentos integradores es el Banco del Sur para financiar obras de infraestructura en la región. "Ese es nuestro Banco Mundial", definió.
por Flavio Dalostto
http://la-opinion-argentina.blogspot.com/
♠♥♣♪♠♥♣♪♠♥♣♪
Que sean todos los pueblos y todos los huertos nuestros…»
- León Felipe
♠♥♣♪
“A poesia é um sistema luminoso de sinais...”
León Felipe
♠♥♣♪
“O verso anterior ao meu é uma tocha que trazia na mão o poeta precedente que me procurava, e o verso que me segue é uma luz que está incendiando outro nas sombras espessas da noite, vendo os meus sinais.”
León Felipe
♠♥♣♪♥
“ALCArajo el Imperialismo”)
(¡Manos yanquis fuera de Bolivia, Honduras y toda Latinoamérica!)
![[perfil_.png]](http://1.bp.blogspot.com/_vs40m2QbmO8/SE6advu2PaI/AAAAAAAAOcw/ObEwEpj-JHs/s1600/perfil_.png)
♣♥♣♪♪

![[el+pueblo+somos+la+mayoria.jpg]](http://1.bp.blogspot.com/_vs40m2QbmO8/Sb2RBREA5II/AAAAAAAAZ8I/kxSqpXYPk5Y/s1600/el%2Bpueblo%2Bsomos%2Bla%2Bmayoria.jpg)
♣♥♣♪♪
“Quiero decirles, que a los primeros aymaras y quechuas que aprendieron a leer y escribir, les sacaron los ojos, les cortaron las manos para que nunca más ninguno aprendiera a leer y escribir. Hemos sido sometidos, ahora estamos buscando cómo resolver ese problema histórico”.Evo Morales

♥♥♣♣

Foto ABI►Moniz Bandeira: Bases dos EUA são para limitar projeção do Brasil
O cientista político Luiz Alberto Moniz Bandeira (foto), um dos principais especialistas na história da diplomacia brasileira, analisa que "o objetivo da ampliação das bases (dos EUA) na Colômbia é restringir a projeção do poder político e militar do Brasil, frustrando iniciativas como a Unasul e o Conselho Sul-Americano de Defesa."
Moniz Bandeira: "A ampliação das bases na Colômbia não constitui uma iniciativa do presidente Barack Obama"
Em entrevista ao Terra Magazine, o professor titular de história política exterior do Brasil, na Universidade de Brasília, argumenta que o desenvolvimento dessas organizações multilaterais, que fomentam a integração regional, não interessa aos EUA.
"Essas instituições, que dão à América do Sul uma identidade própria, não convém aos Estados Unidos (...) A presença dos Estados Unidos sempre foi um fator de desestabilização em todas as regiões do mundo e seu objetivo com a ampliação das bases na Colômbia é fomentar um cisma e impedir a integração econômica e política da América do Sul", avaliou.
Autor de Fórmula para o caos: a derrubada de Salvador Allende, 1970-1973, Moniz Bandeira comenta a liberação de documentos inéditos pelo Departamento de Estado dos EUA. Entre as revelações, uma conversa entre os presidentes Emílio Garrastazú Médici e Richard Nixon, no Salão Oval da Casa Branca, em 9 de dezembro de 1971. O ditador Médici afirmou que o Brasil "estava trabalhando" pela derrubada do governo do chileno Salvador Allende.
Para Moniz Bandeira, a íntegra da conversa "não surpreende". "Colaboração realmente houve (entre Brasil e CIA), mas todo o processo de desestabilização do governo do presidente Salvador Allende foi financiado e conduzido pela CIA e pelos serviços de inteligência militar da Marinha e do Exército dos Estados Unidos. A participação do Brasil foi importante, mas secundária. Não foi fundamental".
Leia a entrevista e deixe abaixo a sua opinião:
A conversa entre os presidentes Richard Nixon e Emílio Garrastazu Médici, em 1971, exposta em papéis liberados pelo Departamento de Estado dos EUA, modifica com intensidade os relatos já existentes sobre o papel do Brasil no golpe militar chileno?
A revelação do memorandum da conversa entre o general Emílio Garrastazú Médici e o presidente Richard Nixon não surpreende. Era perfeitamente imaginável que os dois chefes de governo conversaram sobre o assunto, quando Médici visitou os Estados Unidos.
E conversaram não apenas sobre o Chile, como sobre o Uruguai, onde o Brasil, segundo o próprio Nixon revelou ao primeiro-ministro da Grã-Bretanha, ajudou a fraudar a eleição para evitar a vitória da Frente Ampla. Tudo isto está em meu livro Fórmula para o caos - A derrubada de Salvador Allende, lançado no ano passado, simultaneamente, no Brasil e no Chile (e este ano em Portugal).
Médici afirmou que o Brasil "estava trabalhando" pela sublevação das Forças Armadas do Chile. Como se deu esse entendimento com militares chilenos?
Os entendimentos foram efetuados através dos serviços de inteligência do Brasil, aos quais Médici encarregou a tarefa de ajudar a articulação do golpe, naturalmente em contacto com a CIA. O embaixador de Brasil no Chile, Antonio Cándido da Cámara Canto, era um homem de extrema direita e adversário do governo de Salvador Allende, mas o general Garrastazú Médici deixou a cargo dos militares a missão de articular com os militares chilenos e os dirigentes de Patria e Libertad, com a assistência da CIA, os planos para o golpe.
Eduardo Díaz Herrera, dirigente de Patria y Libertad desenvolveu um plano que envolvia o Serviço Nacional de Informações (SNI) e os serviços de inteligência do Exército, Marinha e Aeronáutica do Brasil. Ele e Manuel Fuentes estiverem em Brasília e lá se reuniram com altos oficiais das Forças Armadas, entre os quais o general João Batista Figueiredo, chefe da Casa Militar da Presidência e o coronel Venceslau Malta.
De acordo com o plano elaborado, se ocorresse uma cisão nas Forças Armadas, se o golpe não fosse institucional, as unidades militares insurgentes e as Brigadas Operativas y Fuerzas Especiales (BOFE) de Patria y Libertad, ocupariam as províncias do sul de Chile, apoiadas secretamente pelo Brasil e Argentina, cujas Forças Armadas lhes dariam assistência logística e o armamento necessário. Sobre isto escrevi em Fórmula para o caos com base na documentação brasileira.
Qual o nível de colaboração entre a ditadura brasileira e a CIA, na deposição de Salvador Allende?
Colaboração realmente houve, mas todo o processo de desestabilização do governo do presidente Salvador Allende foi financiado e conduzido pela CIA e pelos serviços de inteligência militar da Marinha e do Exército dos Estados Unidos. A participação do Brasil foi importante, mas secundária. Não foi fundamental.
Como o senhor avalia a política brasileira de liberação de documentos sobre a ditadura militar? Quais são os pontos que devem ser priorizados?
Os documentos do SNI, que não foram incinerados nos anos 1980, estão disponíveis para a pesquisa no Arquivo Nacional, seção regional de Brasília. Também os do CIEX. Mas os arquivos do CIE, CENIMAR e CISA, as Forças Armadas relutam em entregar ao Arquivo Nacional, não obstante a determinação decretada pelo presidente Lula.
Bases militares americanas na Colômbia
A ampliação das instalações militares americanas em território colombiano oferecem quais riscos para a segurança continental?
O objetivo da ampliação das bases na Colômbia é restringir a projeção do poder político e militar do Brasil, frustrando iniciativas como a Unasul e o Conselho Sul-Americano de Defesa. Essas instituições, que dão à América do Sul uma identidade própria, não convém aos Estados Unidos. Não se trata de risco para a segurança continental.
A presença dos Estados Unidos sempre foi um fator de desestabilização em todas as regiões do mundo e seu objetivo com a ampliação das bases na Colômbia é fomentar um cisma e impedir a integração econômica e política da América do Sul.
A ampliação das bases na Colômbia foi decerto planejada juntamente com a restauração da IV Frota no Atlântico Sul, visando a fortalecer a presença dos Estados Unidos na região e assegurar o controle de seus recursos naturais, como, por exemplo, a água e o petróleo.
Os EUA e a Colômbia caminham para o acordo bilateral. Isso será um erro diplomático do presidente Barack Obama na região?
A ampliação das bases na Colômbia não constitui uma iniciativa do presidente Barack Obama. Ele enfrenta séria oposição interna e não controla todo o aparelho de governo. Não tem muitas condições de reverter a influência do complexo industrial-militar. Atualmente quem pauta a política exterior dos Estados Unidos não é propriamente o Departamento de Estado, mas o Departamento de Defesa, o Pentágono.
A militarização da política exterior dos Estados Unidos, formalizada com a criação dos comandos militares, para as diversas regiões, inclusive a América Latina (USSouthern Command), tomou impulso com os atentados de 11 de setembro de 2001. Esses comandos atuam como consulados do Império Americano.
Caso se concretize a ampliação da presença militar americana, o Brasil deve reformular sua política para a Amazônia?
Não há o que reformular na política para a Amazônia como conseqüência da ampliação das bases americanas na Colômbia. Há muitos anos, militares dos Estados Unidos trabalham não só na Colômbia como nos demais países limítrofes da Amazônia. E as Forças Armadas estão conscientes da ameaça, ainda que pareça remota.
Todos os anos elas realizam operações de treinamento, tendo como primeira hipótese de guerra o enfrentamento com uma potência tecnologicamente superior no teatro de guerra da Amazônia.
Fonte: Terra Magazine
♣♣
(“ALCArajo el Imperialismo”).
♣♣
►Hugo Chávez
El diario dedicó nueve de los artículos de su edición del domingo 18 de noviembre, repartidos en seis secciones, a criticar al presidente venezolano (PS)
El País contra Chávez, fuego a discreción
Pascual Serrano/Rebelión
por Pascual Serrano
Desde Teherán,
desde Caracas,
desde Managua,
desde Madrid,
desde Londres;
en el editorial,
en la portada,
en la revista de prensa,
en el suplemento del domingo;
el enviado especial,
el corresponsal,
el escritor consagrado,
el editorialista…
Todas las baterías del diario El País en su versión de papel del domingo 18 de noviembre se pusieron a disparar contra el presidente venezolano Hugo Chávez de forma sincronizada atendiendo a la misma orden militar.
Pascual SerranoSegunda-feira, Novembro 09, 2009
►Um muro que caiu sobre a esquerda
A queda do Muro de Berlim desencadeou a maior crise ideológica do campo socialista
As palavras de Caetano
Caetano Veloso vive de música e de palavras. Quando está meio esquecido, lá vem ele com alguma polêmica. Gosta de usar os jornalões para isso - a Folha é sua preferida, mas vale também o Globo, o Estadão, o que estiver mais %E... Leia Mais

Desconexos, patéticos, vítimas da vaidade

Documento oficial de la Fuerza Aérea de EEUU revela las verdaderas intenciones detrás del Acuerdo Militar con Colombia
Un documento oficial del Departamento de la Fuerza Aérea del Departamento de Defensa de Estados Unidos revela que la base militar de Palanquero, Colombia “garantiza la oportunidad para conducir operaciones de espectro completo por toda Améric... Leia Mais

GlLORIA GAITAN: URIBE NOS VENDEU
El importante informe de Eva Golinger, que aquí anexo, desmiente las declaraciones de inocencia que ha expuesto Álvaro Uribe con relación al tratado sobre las bases militares en Colombia firmado con Estados Unidos. ... Leia Mais

Daniel Thame: O lorde, o dândi e o analfabeto
Fernando Henrique Cardoso, com seu jeitão de lorde, é tido e havido como um dos principais intelectuais brasileiros, suprassumo do conhecimento acadêmico, farol a iluminar a obscura vida brasileira. Exibe títulos de doutor honoris cau... Leia Mais

A Esquerda depois do Muro
A queda do Muro de Berlim marca o fim do período aberto com a Revolução Soviética de 1917 que – para dizê-lo em palavras de Georgy Lukacs – colocou o socialismo como um tema da “atualidade histórica”. As lutas revolucionárias,... Leia Mais
A estratégia da enrolação
Caetano se explica: Lula é "analfabeto" mas "brilhante"
►Sob pressão, Uniban recua e anula expulsão de Geisy A Uniban desistiu de expulsar a aluna Geisy Arruda, diante da repercussão negativa. E medida foi questionada pela OAB, pelo Ministério Público Federal e pela UNE. O governo Serra manteve silêncio.
►"EUA são cúmplices de farsa em honduras"
►Verdadeiros muros da vergonha foram erguidos nos EUA e em Israel
►Pesquisa: 89% querem mais Estado na distribuição de riquezas
►O "mensalão" tucano de Azeredo e as máscaras da direita
20 anos depois da queda do muro, 'livre mercado' é repudiado
►Pós-muro de Berlim, ano 20: o socialismo vive!

►Eduardo Galeano defende Chávez e o MST
Convidado para fazer a palestra de abertura da 5ª edição da Festa Literária Internacional de Porto de Galinhas (PE), a Fliporto, o escritor uruguaio Eduardo Galeano defendeu a existência do Movimento dos Sem Terra e o presidente venezuelano Hugo Chávez. E se disse "refém" de seu livro mais famoso, "As veias abertas da América Latina".
Falando para uma plateia aproximada de cem pessoas, Galeano disse que o trabalho vem sendo desvalorizado no mundo atual. "Sofre quem defende sua forma de sobrevivência, daí minha opinião de que os MST deveria ganhar medalhas e não represálias", afirmou.
Sobre Chávez, o escritor uruguaio defendeu a disposição do presidente venezuelano em garantir as reservas naturais de petróleo. "Isso não é comum em mandatários de países que dispõem de um manancial como esse", afirmou ele, acreditando que Chávez vem sendo bombardeado de críticas justamente por suas virtudes.
Durante um encontro de líderes em abril, em Trinidad e Tobago, Hugo Chávez presenteou o presidente americano Barack Obama com aquele que é considerado a obra-prima de Galeano, Veias Abertas da América Latina (Paz e Terra).
O livro, aliás, provoca reações distintas em seu autor. "Se me abriu as portas do mundo, tornando-me conhecido, ao mesmo tempo me tornou seu refém pois, mesmo publicado há mais de 30 anos, continuo ligado a ele. Faz parecer que parei ali", revelou Galeano. "O livro foi só o ponto de partida", disse o escritor em seu português quase perfeito.
No evento, o escritor leu trechos do recente "Espelhos", que para ele "não acaba nos limites da América Latina nem do tempo". Mas a evolução pela qual diz ter passado não é bem ideológica. "Veias Abertas tem lamentável atualidade, embora corresponda a um momento exato da história. O que mudou foi meu estilo, hoje prefiro dizer muito com pouco."
Com agências
Quinta-feira, Novembro 05, 2009
TecnoBahia
Ministro da Ciência e Tecnologia visita Parque Tecnológico e assina convênios na Bahia
O Ministro da Ciência e Tecnologia, Sérgio Rezende, vem quinta-feira (5 de novembro) a Salvador. Às 15 horas, ele acompanha o secretário Eduardo Ramos em visita às obras do Parque Tecnológico - TecnoBahia, onde assina termo de liberação dos R$ 17 milhões relativos ao convênio 172/2008, para o empreendimento. Os recursos serão usados na implantação da Escola de Educação Científica, do Museu da Ciência e de um Parque Ambiental, além de projetos de incubadoras e laboratórios, atração de empresas e talentos. Também vão ser assinados convênios com a Universidade Federal da Bahia (Ufba) e a Universidade do Estado da Bahia (Uneb), para fortalecer o sistema científico e tecnológico da Bahia.
O governador Jaques Wagner, o secretário de Ciência, Tecnologia e Inovação, Eduardo Ramos, e os reitores da Ufba, Naomar Almeida, e da Uneb, Lourisvaldo Valentim, também participam da visita. A parte de infraestrutura do TecnoBahia está em fase de conclusão e deve ser inaugurada ainda este ano. Toda a parte subterrânea de tubulação – energia elétrica, água, esgoto e também para cabeamento lógico – está pronta. As vias, construídas em piso intertravado, ecologicamente correto, estão quase finalizadas.
Outro ponto de destaque é que a Remessa – Rede Metropolitana de Dados, 20 vezes mais rápida que a banda larga comercial – já está pronta para entrar em funcionamento assim que o TecnoBahia entre em operação. As obras do primeiro prédio, o TecnoCentro, já começaram e devem ficar prontas até o fim do próximo ano.
O TecnoBahia está sendo concebido em três eixos centrais: o da inovação (como instrumento de atração de empresas), a da tecnologia (esfera institucional de suporte à interação entre universidades e empresas) e da ciência (estratégia de fortalecimento da produção científica). As áreas prioritárias serão Biotecnologia e Saúde, Energia e Ambiente, Tecnologia da Informação e da Comunicação, além de Cultura e Turismo.
Assessoria de Comunicaçao

Quarta-feira, Novembro 04, 2009
ANP faz estimativa sobre capitalização da Petrobras
A capitalização da Petrobras deve levar no mínimo um ano para ser concretizada, estimou o chefe de gabinete da presidência da Agência Nacional do Petróleo, Biocombustíveis e Gás Natural (ANP), Luiz Eduardo Duque Dutra.
Ele prevê ainda que levará entre 30 e 90 dias para ser escolhido o local de exploração de petróleo a ser dado à estatal pelo governo como cessão onerosa. Pelo projeto de lei em análise no Congresso, que será debatido e possivelmente votado nesta quarta-feira, a Petrobras fará uma capitalização privada correspondente a 5 bilhões de barris de petróleo que pertencem à União na região do pré-sal.
As ações da empresa serão trocadas por títulos do governo e os mesmos devolvidos em troca das reservas. Segundo estimativas de mercado, a capitalização total, somando os minoritários que detêm 60% do capital da companhia, pode atingir entre US$ 30 bilhoes e US$ 60 bilhões, dependendo do preço do petróleo que será cubado, avaliado em unidades cúbicas.
"A gente vai primeiro localizar, é preciso ver todos os mapas geológicos para posicionar a sonda e depois furar", disse Dutra durante seminário do pré-sal no qual substituiu o diretor-geral da ANP, Haroldo Lima. Ele confirmou que a área que está sendo avaliada pela Petrobras, empresa contratada pela ANP, é próxima das descobertas já feitas, "a chamada picanha azul", mas lembrou que será preciso ainda muito trabalho.
Prazo
"A região é no cluster de Santos (na bacia de Santos), e provavelmente nessas regiões que se desconfia que as reservas ultrapassem as concessões, mas a localização exata é uma questão extremamente técnica, que deve estar em andamento nos próximos 30 a 90 dias", disse.
"Depois de situado o local, perfurado o poço, descoberta a reserva, tem então que certificar a quantidade de barril lá em baixo, e isso depende da contratação de empresas", lembrou Dutra. "Eu diria que um ano é um bom prazo", afirmou.
Ele informou que a ANP acelerou os trabalhos para realizar a 11ª rodada de licitações de áreas de petróleo e gás natural, já adiada internamente para 2010, e que provavelmente o leilão ainda não contará com áreas do pré-sal, que serão submetidas ao regime de partilha e não mais de concessão como o atual.
"A ordem na ANP é fazer o mais rápido possível", disse Dutra, ressaltando que é fundamental dar prosseguimento aos leilões mesmo antes do novo marco regulatório ficar pronto. "(O leilão) é fundamental para manter a área de exploração brasileira, que nos últimos anos tem diminuído", destacou.
Emenda
Segundo ele, uma das missões da ANP é não deixar que o pré-sal seja o único objetivo do país em matéria de petróleo. "É preciso aumentar a área de exploração e isso depende das rodadas", frisou. Dutra lembrou que no país existem acumulações marginais adequadas para o empresariado local, que não pode concorrer com as grandes empresas internacionais, e a ANP pretende incentivar essa atividade.
Atualmente, esses pequenos produtores significam cerca de 2 mil barris diários (b/d) frente aos 2 milhões de b/d produzidos pela Petrobras. No projeto de lei que discute o novo modelo de partilha, os deputados acrescentaram uma emenda obrigando a Petrobras a ceder blocos com menos de 1 milhão em reservas. Segundo Dutra, a emenda não deverá ser aprovada, mas pelo menos acendeu a discussão dos pequenos produtores, uma antiga bandeira do diretor Haroldo Lima.
"Eu vejo essa emenda mais como uma tentativa. Quando se discute o macro é bom discutir o micro, no momento em que se discute a picanha azul, é preciso também ter uma legislação que proporcione que o pequeno empresário ingresse na indústria do petróleo", afirmou.
Comissão do Senado aprova monopólio do petróleo para União
A Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa (CDH) do Senado Federal aprovou nesta quarta-feira sugestão da Federação Única dos Petroleiros (FUP), apoiada por movimentos sociais, de regulamentação da política energética nacional. O texto, que propõe o monopólio da União sobre a exploração do petróleo por meio da Petrobras, após o debate em quatro audiências públicas, passou a ser de autoria da CDH. A proposta agora será encaminhada à Mesa e tramitará no Senado como projeto de lei.
De acordo com a proposta, todos os direitos de exploração e produção de petróleo e gás natural em território nacional - parte terrestre, mar territorial, plataforma continental e zona econômica exclusiva - pertencem à União. O texto estabelece que todas as atividades econômicas relacionadas ao petróleo, ao gás natural, ao xisto betuminoso e a biocombustíveis - pesquisa e lavra, refinação, industrialização, importação e exportação, transporte marítimo e transferência ou estocagem - serão reguladas e fiscalizadas pela União e somente poderão ser exercidas pela empresa pública Petrobras.
O texto, considerado pelo relator, senador Paulo Paim (PT-RS), importante referência para as discussões em torno do petróleo no pré-sal, propõe também a aplicação dos recursos decorrentes da exploração e produção do petróleo, e que caberão ao Fundo Social Soberano, em educação, saúde e previdência públicas, na reforma agrária e em projetos de habitação popular.
A proposta também prevê a reabertura dos debates em torno dos blocos já ofertados no pré-sal e reforça a necessidade de fortalecimento da Petrobras como uma empresa pública, focada na defesa dos interesses do país, conforme resumiu o relator.
O projeto determina a rescisão das concessões para exploração e produção de petróleo e de gás natural realizadas com base na Lei 9.478/97, que trata da política energética nacional. São previstas indenizações de eventuais investimentos realizados pelos concessionários.
O projeto também prevê que, no prazo de um ano da publicação da lei, a União tomará as medidas necessárias à transformação da estatal Petróleo Brasileiro S/A em empresa pública. Ainda pela proposta, a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) será um órgão fiscalizador da indústria do setor.
Impacto ambiental
O projeto garante ao Fundo Social Soberano a receita líquida auferida pela União com as atividades econômicas de exploração e produção, já excluídos os custos da atividade, o investimento e o re-investimento necessários à execução das políticas e diretrizes energéticas e à busca de fontes alternativas de energia renovável e limpa, e o aporte implicado pelo autofinanciamento. Do total da receita destinada ao Fundo, o equivalente a 5% poderá ser utilizado pela União para eventuais medidas de minimização do impacto ambiental dessa indústria.
De acordo com o projeto, as políticas nacionais para o aproveitamento racional das fontes de energia terão por objetivos preservar o interesse nacional, garantir o emprego dos recursos gerados pela atividade econômica no combate às desigualdades sociais e regionais, promover o desenvolvimento, ampliar o mercado de trabalho e valorizar os recursos energéticos, proteger os interesses do consumidor, proteger o meio ambiente, promover a conservação de energia e fomentar a indústria e a economia nacionais.
Na avaliação de Paim, a proposta do Poder Executivo para o setor "é um avanço em relação ao marco regulatório atual, mas está longe daquilo que os trabalhadores e os movimentos sociais reputam como ideal para o Brasil". Esse modelo ideal, segundo o senador, está consolidado no projeto aprovado nesta quarta-feira pela CDH.
Fonte: Terra, com informações da Agência Senado.
Segunda-feira, Novembro 02, 2009
Sorry, Periferia...

![[escayolada.jpg]](http://3.bp.blogspot.com/_vs40m2QbmO8/RdZ_Z7f_8aI/AAAAAAAAA60/jOq0DATpCTc/s1600/escayolada.jpg)
Gracias, Jesús Bordas
NÚRIA
A lentamente bela bruxa cisne magro
A lentamente mate cor do pão de trigo
A lentamente Núria de navalha e ligas
Ah lentamente o corpo se compara ao cubo
e muda as asas quentes em arestas frias!
Mãos vestidas de roxo a festejar tristeza
em Sexta-feira Santa d'oração medonha!
Ah lentamente a Espanha em procissão nas ruas,
cabelos desgrenhados mais guitarras nuas!
Ah Núria, rosa-névoa, lâmina de pétalas
a recortar raizes dos meus olhos d'húmus!
Ah lentamente lentamente aponto e estico
o arco: assobia a flecha no teu flanco
e, de repente, no meu sangue flui um barco
Paço d'Arcos, 13.X.72
ANTÓNIO BARAHONA
NOITE DO MEU INVERNO Lisboa, 2001
♪♥«♣♪¤ø♪♥«♣¤♣♥♥ø¤♥º♪
@»♣♥º¤♪♪♣♥♪♪♣¤♪♪♥º♪«
"Geografia de Rebeldes"
"Leio um texto e vou-o cobrindo com o meu próprio texto que esboço no alto da página, mas que projecta a sua sombra escrita sobre toda a mancha do livro. Esta sobreposição textual tem por fonte os olhos, parece-me que um fino pano flutua entre os olhos e a mão e acaba cobrindo como uma rede, uma nuvem, o já escrito. O meu texto é completamente transparente e percebo a topografia das primeiras palavras. Concentro-me em São João da Cruz quando o texto fala em Friedrich N. (...) bordo e penso que sei bordar; não sei como fiz esta associação mas logo depois reflicto. Saber e ver. Posso escolher as cores, escolhi as cores das linhas que são rosa avermelhado e vermelho, e escolhi a cor do tecido, o castanho – que para mim é esta a cor da reformulação da comunidade. (...) Passo da escrita ao bordado, traduzindo como se ambos fossem a minha palavra: por momentos, esqueço-me mesmo de que bordo, de tal modo os meus dedos se tornaram dextros e o meu pensamento, reflectido sobre o bordado, um pensamento. Com um livro escreve-se outro livro. Como um livro é vegetal."
(O livro das comunidades).
Maria Gabriela Llansol
♪«♪♥♥ø♪♣♥♪º♪º♥♣«♪¤♪
♪@»♪♥º¤ø♪♪♪♥♪¤º♪♥♪
"o ciberespaço manifesta propriedades novas, que fazem dele um precioso instrumento de coordenação não hierárquica, de sinergização rápida das inteligências, de troca de conhecimentos, de navegação nos saberes e de autocriação deliberada de coletivos inteligentes."
LÉVY, Pierre. O que é o virtual?
Arte: ellos no existen.
Jesús Bordas Luque
Acerca de ellos no existen,
Jesús Bordas Luque
Nacido en Montcada i Reixac, 1969.
Vecino de Sant Vicenç de Montalt
(Barcelona).
Licenciado en Bellas Artes.
♪«♪♣
Des tours comme des cristaux.
Des murs translucides.
La pureté du verre habillant l'acier.
Pas un rameau gothique, pas une
feuille d'acanthe: rien qui
se souvienne du règne végétal.
Un monde minéral.
D'étincelantes stalagmites.
Des formes aussi froides que la glace.
Mathemátiques.
Nuit sur le secteur des Sciences.
"Torres como cristais.
Muros translúcidos.
A pureza do vidro vestindo o aço.
Sem ramo gótico, sem folha de acanto:
nada que tenha vindo do reino vegetal.
Um mundo mineral.
De brilhantes estalactites
De formas tão frias quanto o gelo.
Matemáticas.
Noite sobre o setor das ciências."

Poema de Hugh Ferriss que acompanha “Nuit sur le secteur des sciences” que ilustra um dos setores de sua proposição de uma cidade imaginária. Tradução de Anna Paula Canez, arquiteta e professora do Curso de Arquitetura e Urbanismo Ritter dos Reis.
♪«♪♣Pesado fardo tucano: Um réquiem para FHC
Política| 02/11/2009 | Copyleft
Um réquiem para FHC
O texto do ex-presidente tucano, publicado em vários jornais no domingo, revela um erro de cálculo político sem precedentes. Contrariando seus aliados, que desejavam vê-lo distante da campanha do PSDB para presidente em 2010, FHC trouxe para o próximo pleito a comparação entre as políticas de seu governo e as do governo Lula: a única polarização que a direita não queria. Imaginando-se um estrategista, virou um fardo pesado para as possíveis candidaturas de José Serra e de Aécio Neves. O artigo é de Gilson Caroni Filho.
Gilson Caroni Filho
As palavras são as armas. E foi acreditando em sua capacidade de manejá-las com destreza que Fernando Henrique Cardoso tentou atacar o presidente Lula em seu artigo publicado no jornal O Globo, do último domingo. Em sua vaidade desmedida, imaginava-se escrevendo um texto inaugural, um manifesto histórico capaz de desvendar a cena política, retirando a oposição do estado letárgico em que se encontra. O efeito foi exatamente o contrário.
O texto mal escrito, sem sentido em muitos parágrafos, revela um erro de cálculo político sem precedentes. Contrariando seus aliados, que desejavam vê-lo distante da campanha do PSDB para presidente em 2010, FHC trouxe para o próximo pleito a comparação entre a política econômica do governo e a da gestão petista: a única polarização que a direita não queria. Imaginando-se um estrategista, virou um fardo pesado para as possíveis candidaturas de José Serra e de Aécio Neves. Triste para o prestigiado sociólogo, deplorável para o experiente político.
Comparações são ociosas, mesmo porque cada polemista tem o seu tempo na história. Mas não é de hoje que o sonho do "príncipe dos sociólogos" é ser um Carlos Lacerda redivivo. Vê a si próprio como um panfletário versátil e demolidor, capaz de usar as palavras como metralhadoras giratórias nas mãos de um guerrilheiro. O problema é que seu estilo é tosco e seus escritos ininteligíveis. Não é capaz de açular os medos da classe média, mesmo usando os velhos ingredientes que vão da ameaça de uma república sindicalista a um quadro incontrolável de corrupção. Não aprendeu que, sem o apoio das bases sociais que o acompanham, seu suposto prestígio pessoal conta pouco.
Para criar condições de instabilidade superestrutural não bastam editoriais, artigos e noticiários de jornalistas de direita. É preciso que as classes dominantes se encontrem excepcionalmente reunidas em torno de um só objetivo. Para isso, do outro lado, tem que haver um governo fragilizado, com escassa base de apoio, incapaz de promover crescimento econômico com redistribuição de renda. Reeditar uma "Marcha da Família com Deus, pela liberdade" não é o troféu fácil que o voluntarismo pedante imagina.
Quando escreve que "é possível escolher ao acaso os exemplos de "pequenos assassinatos". Por que fazer o Congresso engolir, sem tempo para respirar, uma mudança na legislação do petróleo mal explicada, mal-ajambrada? Mudança que nem sequer pode ser apresentada como uma bandeira "nacionalista", pois, se o sistema atual, de concessões, fosse "entreguista", deveria ter sido banido, e não foi. Apenas se juntou a ele o sistema de partilha, sujeito a três ou quatro instâncias político-burocráticas para dificultar a vida dos empresários e cevar os facilitadores de negócios na máquina pública", seu objetivo é tão claro como raso.
É uma volta ao passado como farsa. Aos tempos em que os nacionalistas lutavam por uma solução independente para extração e refino do petróleo, de importância estratégica para o desenvolvimento do país, enquanto os entreguistas definiam-se abertamente pela exploração do produto pelo capital estrangeiro. Claro que estamos tratando de realidades distintas no tempo e no espaço, mas a motivação da direita é idêntica. E é a ela que a inspiração de FHC se dirige, inebriado como se cavalgasse uma fulgurante carreira política. O desespero e o patético andam sempre de mãos juntas. Ainda mais se lembramos "quem cevou os facilitadores de negócios na máquina pública" no período que vai de 1994 a 2002.
Criticando o que chama de "autoritarismo popular", o candidato a polemista prossegue: "Devastados os partidos, se Dilma ganhar as eleições sobrará um subperonismo (o lulismo) contagiando os dóceis fragmentos partidários, uma burocracia sindical aninhada no Estado e, como base do bloco de poder, a força dos fundos de pensão. Estes são "estrelas novas". Surgiram no firmamento, mudaram de trajetória e nossos vorazes, mas ingênuos capitalistas recebem deles o abraço da morte. Com uma ajudinha do BNDES, então, tudo fica perfeito: temos a aliança entre o Estado, os sindicatos, os fundos de pensão e os felizardos de grandes empresas que a eles se associam."
A recorrência aos riscos de uma república sindicalista mostra a linhagem golpista do artigo de FHC, mas a falta de prudência, indispensável para quem pensa estar escrevendo um novo Manifesto dos Coronéis, leva a indagações. O autoritarismo de mercado, marca do seu mandato, é exemplo de democracia? A era da ligeireza econômica, da irresponsabilidade estatal ante a economia fortalecia as instituições do Estado Democrático de Direito? Ou não seria exatamente o oposto? Um bloco de poder composto pelo agronegócio, grandes corporações midiáticas e uma burguesia desde sempre associada, que privilegiava a ampliação crescente das margens de lucro, ignorando os custos sociais que isso implicava. Qual a autoridade política do ex-presidente para interpelar o atual?
O que foi seu governo senão uma tentativa desastrosa de adaptar o aparelho de Estado às exigências criadas pelo neoliberalismo, contendo, a todo custo, as reivindicações dos trabalhadores do campo e da cidade? No final, com uma impopularidade recorde, a superestrutura política entrou em crise e os aliados contemplaram a rota de afastamento. É a isso que FHC nos convida a voltar?
Outra observação interessante pode ser extraída desse trecho: "Por que tanto ruído e tanta ingerência governamental numa companhia (a Vale) que, se não é totalmente privada, possui capital misto regido pelo estatuto das empresas privadas?". Aqui, o lacerdista frustrado ultrapassou qualquer limite da sensatez. Abriu o flanco, ao permitir a inversão da pergunta que faz.
Como destacaram, em 1997, Cid Benjamim e Ricardo Bueno, no "Dossiê da Vale do Rio Doce", "o Brasil levou 54 anos para construir e amadurecer esse gigantesco complexo produtivo. O governo FHC pretende vendê-lo, recebendo no leilão uma quantia que corresponderá, mais ou menos a um mês de juros da dívida interna". Em maio daquele ano, a Vale foi vendida pelo governo federal por R$ 3,3 bilhões. Em 2007, seu valor de mercado estava em torno de R$103 bilhões. Em nenhum outro período a máquina estatal foi usada para transferir recursos públicos para o capital privado como nos dois governos do tucanato. Foi a esse continuísmo que a população deu um basta em outubro de 2002.
O que se pode depreender das linhas escritas pelo tucano que queria ser corvo? FHC se especializou na arte do embarque em canoas onde o lugar do náufrago está antecipadamente destinado ao canoeiro de ocasião. Julgava estar redigindo um artigo que funcionaria como divisor de águas. Mas afundou junto com ele. Escreveu o seu próprio réquiem, levando junto velhos próceres do PSDB. Um trabalho e tanto. Extremamente apropriado para leitura no dia 2 de novembro.
Stédile denuncia Cutrale e critica mídia burguesa
"Telebrás no PNBL é a garantia da universalização da banda larga"
Rodrigo Vianna: As alternativas à crise no jornalismo
País deve receber reforço de até R$ 500 bi para crédito em 2010
Honduras: O Superpoder e a nova realidade
Software Livre: OpenOffice.org supera cem milhões de downloads
Brasil define 3ª-feira proposta para Conferência do Clima
Maradona by Kusturica: o filme sobre o ídolo anti-imperialista
Polícia mata, omite seus mortos e fica impune
A polícia brasileira é cada vez mais letal. Segundo a historiadora Ângela Mendes de Almeida, coordenadora do Observatório das Violências Policias de São Paulo (OVP- SP), no entanto, o número de mortos por agentes do Estado é... Leia Mais
Burburinho: FHC escreveu carta-testamento com medo da Satiagraha

http://www.paulohenriqueamorim.com.br/
3/novembro/2009
Conversa Afiada
Domingo, Novembro 01, 2009
Venezuela no Mercosul – três derrotas da direita
Foi uma tarde memorável. Depois de três horas e meia de debates e três derrotas consecutivas da oposição neoliberal, a Comissão de Relações Exteriores do Senado aprovou ontem (dia 29) a entrada da Venezuela no Mercosul. O próximo passo será, agora, a aprovação pelo Senado; com ela, o Brasil junta-se à Argentina e Uruguai, que já aprovaram a adesão, faltando apenas o previsível sim do Paraguai.
imago: http://economiasocialistads.blogspot.com/
Venezuela
Jucá defendeu o argumento de que não se defende, nem se amplia, a democracia isolando-se uma nação. “Se existem problemas e disputas, o remédio é abertura, mediação internacional e o Brasil ajudar nos entendimentos políticos”, disse ele.
Outro argumento forte que ajudou a derrotar a resistência tucana foi o florescente comércio entre Venezuela e Brasil, que tem a perspectiva de crescer ainda mais. Em 2008, segundo o Itamaraty, passou de 5 bilhões de dólares. O governador do Paraná, Roberto Requião enfatiza isso quando diz que “todo mundo que comer um frango na Venezuela está comendo um frango paranaense”. Só com o Paraná as trocas comerciais com o grande vizinho deixaram em 2008 o saldo positivo de 388,4 milhões de reais em 2008 – e o faturamento com os frangos, de 185,3 milhões, representa 48% desse total. Hoje, a Venezuela importa quase 70% de tudo o que consome, e a origem de boa parte disso é a Colômbia, de quem importa todo ano mais de sete bilhões de dólares em mercadorias. Com a adesão ao Mercosul, a indústria brasileira terá condições de absorver boa parte dessas exportações.
Finalmente, pesou na balança a importância da integração da América do Sul, fortalecida com a criação de uma área geográfica contínua, que vai do extremo sul do continente, com a Argentina, ao litoral caribenho, com a Venezuela, e que tem a importância geopolítica fundamental de incrementar a soberania e a autonomia da região frente ao imperialismo dos EUA. Integração que se dá com o respeito à independência nacional de cada um dos parceiros, sinalizada no princípio da não intervenção, que é uma espécie de dogma benigno da diplomacia brasileira, e do qual a oposição de direita não se cansa de reclamar.
Sábado, Outubro 31, 2009
Stédile: "Querem desmoralizar quem faz luta social nesse país"
"Querem desmoralizar quem faz luta social nesse país". A conclusão é do ativista e economista João Pedro Stédile, um dos fundadores e uma das mais representativas vozes, hoje, do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), ao analisar a campanha difamatória perpetrada pela mídia e oposição brasileiras que colocou o MST no centro das discussões nacionais, e conseguiu a instalação de uma CPI contra a organização.
Segundo Stédile, "o principal objetivo da CPI do MST é provar que o governo vai destinar dinheiro para o MST para fazer campanha para a (ministra) Dilma Rousseff", o que, na realidade, constitui-se na construção de mais um factóide pela mídia e oposição. A Comissão é também, na avaliação de Stédile, uma resposta dos setores retrógrados da sociedade brasileira à vitória dos movimentos do campo que, junto ao governo, conquistaram a alteração dos índices de produtividade utilizados pelo INCRA.
Quanto ao episódio da ocupação da fazenda do grupo Cutrale e a derrubada de laranjais, Stédile reconhece que houve erro, mas aponta a superexposição do episódio na mídia. Denuncia, inclusive, que a invasão da casa de funcionários e a quebra dos tratores por ocupantes da fazenda é uma mentira.
De acordo com o relato de Stédile, as imagens exploradas pela mídia foram feitas muitos dias antes que começassem a ser apresentadas e que aqueles que as fizeram aguardaram o momento que julgaram mais oportuno para exibí-las e criar o sentimento que levou ao recolhimento e obtenção das assinaturas parlamentares para a CPI.
Membro da direção nacional do MST - e também da Via Campesina - Stédile faz um diagnóstico da situação agrária no país. Fala sobre a importância da agroindústria e critica a ausência de uma política clara e focada na agricultura familiar em detrimento do agronegócio.
Este, segundo o economista, está hoje monopolizado nas mãos de 20 empresas, 70% delas, transnacionais. Nesta entrevista, o ativista também analisa a contexto americano após a vitória e posse de Barack Obama e o próximo ano eleitoral. Mais urgente do que declinar apoio a um candidato, observa, é a discussão de um projeto de desenvolvimento nacional que inclua, de vez, a reforma agrária na agenda. Confira a entrevista concedida ap ex-ministro José Dirceu.
►Qual a avaliação que você faz da reforma agrária no governo Lula?
É difícil fazer esse balanço isolado do contexto maior da disputa na sociedade brasileira, hoje, entre dois modelos de produção agrícola, o agronegócio e a agricultura familiar.
O agronegócio, na nossa avaliação, é hoje uma aliança de classes entre os fazendeiros capitalistas, as empresas transnacionais e os bancos. Sua produção depende cada vez mais do crédito financeiro. Tanto é que para produzirem R$ 90 bi, eles tiram no Banco do Brasil, R$ 85. Se não tiver esse dinheiro, não produzem porque não têm capital próprio.
Por outro lado, há o modelo da agricultura familiar, diversificado e com base na mão de obra familiar, no uso intensivo da terra e voltado para o mercado interno. A reforma agrária só tem sentido se for para fortalecer esse segundo modelo. Na realidade, o que houve no governo Lula, foi um embate permanente entre esses dois modelos, com ministros dos dois lados. Por mais que se diga “é possível a convivência dos dois”, o governo precisava ter uma orientação política clara: “a minha prioridade é a agricultura familiar e o agronegócio que vá para o mercado."
Isso ele não fez. Deixou que as forças do capital agissem por conta própria na agricultura, o que construiu barreiras, porque o capital foi se fortalecendo com esse modelo do agronegócio. O resultado disso veio agora no Censo Agrícola do IBGE. Nos últimos dez anos - parte do governo Fernando Henrique e todo o governo Lula - houve uma incontestável concentração na propriedade da terra e no controle da produção agrícola.
O MST utiliza um dado econômico revelador: o agronegócio conta com 300 mil fazendas com mais de 200 hectares e com 15 mil latifundiários que detém fazendas acima de 2,5 mil hectares e possuem 98 milhões de hectares. Esse é o conjunto do agronegócio que produz R$ 90 bi do PIB agrícola no país. Se você olhar para quem eles vendem, descobrirá que 20 empresas, hoje, controlam todo o comércio agrícola brasileiro, tanto o de insumos (para financiar a produção), quanto o de commodities. Dessas 20 empresas, 70% são transnacionais e o PIB delas – segundo dados do Valor Econômico - atinge R$ 112 bi a R$ 115 bi.
Claro que tem a margem de lucro. Mas podemos perceber o movimento do capital. Toda a produção do agronegócio é concentrada por 20 empresas que acumulam essa riqueza que vem da natureza. Nisso destaca-se, também, o movimento do capital que levou a uma maior oligopolização da agricultura. Há vários segmentos que se constituem em oligopólios, um nos fertilizantes, outro nos venenos agrícolas, outro nas máquinas, no comércio etc.
Por exemplo, nós somos os maiores produtores de soja mundial enquanto território, mas vai ver quem exporta. Quem controla a soja no Brasil, hoje? Cinco ou seis empresas a Bunge, a Monsanto, a Cargill, a Dreyfus e a ADM do Brasil. Elas ficam com a maior parte da margem de lucro.
É por isso que nós até damos risada, porque a burguesia agrária - essa que se diz representante do agronegócio - não tem consciência de classe para si. Se tivesse, teria que se unir com os camponeses e os trabalhadores agrícolas, para juntos, enfrentarmos essa espoliação feita pelas transnacionais.
Mas não, ela prefere se unir exatamente com as transnacionais e dar pau em nós e na reforma agrária. Esse é o contexto e o governo Lula, como é um governo de composição de classes e de uma correlação de forças muito equilibrada, é o reflexo dele.
►Pensando em uma proposta de desenvolvimento nacional, qual o papel de cada setor no campo, considerando o agronegócio, a agricultura familiar e a reforma agrária, processos em andamento, nos próximos anos? Num governo que tivesse condições de fazer mais políticas...
O grande desafio que temos nesse período histórico - nem é conjuntural – é que o Brasil precisa de um projeto que reorganize a economia para resolver o problema do povo brasileiro. Um projeto que, do ponto de vista político, recupere as massas como atores políticos. E a reforma agrária está emperrada justamente porque só fazer assentamentos nos moldes tradicionais do INCRA não tem futuro, porque está descolado de um projeto. A reforma agrária só tem futuro se for parte de um projeto de desenvolvimento econômico, social e político de todo o país.
Se fizermos a reforma agrária com a agricultura popular dentro desse projeto, precisaremos de uma nova concepção que parta de alguns princípios e vontade política. Por exemplo, (por esse projeto) nós vamos fixar o homem no interior, combater o êxodo rural. As cidades brasileiras não agüentam mais esse inchaço. Nós faremos um processo de distribuição de renda para que os trabalhadores tenham mais dinheiro e comprem mais produtos da indústria, ativem o mercado interno. Dentro desses parâmetros - parte de um projeto diferente e prioritário - qual seria o nosso papel enquanto agricultura familiar?
Primeiro: evidentemente que em algumas regiões do Brasil, você tem que priorizar o processo de distribuição de terras. Não precisa ser em todo o país. Nós temos terra para todos, mas em algumas regiões, é preciso uma intervenção do Estado, uma intervenção clara que combata o latifúndio e garanta uma democratização do acesso à terra.
No Mato Grosso do Sul, por exemplo, há terras férteis, todos os climas, mas precisamos da intervenção do Estado para fazer uma grande reestruturação fundiária. Na Zona da Mata no Nordeste, a mesma coisa. É um absurdo continuarmos com a cana de açúcar, há 500 anos espoliando aquele povo. Aquilo é semiescravidão. Portanto, é preciso regionalizar, o que aliás está em todos os processos de reforma agrária.
Segundo: é inviável distribuir terras sem combinar com a agroindústria. Ela é a única maneira de o camponês aumentar sua renda, porque se continuar produzindo apenas matéria-prima, ele não sairá da pobreza. Então tem que haver um grande programa que leve a agroindústria para o interior. Este sim é e deve ser um componente do projeto nacional.
Ao invés do BNDES dar dinheiro para grandes multinacionais como a Nestlé, Parmalat, por que não fazer um grande programa de pequenas agroindústrias? Não há problema de escala na agroindústria. Não é como uma fábrica de automóvel que exige 30 mil automóveis/dia. Pode ser uma usina de 5 a 30 mil litros, por exemplo. É para isso que precisamos dos milhões dados à Nestlé. Então, que se faça um programa para a agroindústria. E como ela é pequena, de pequeno agricultor, tem que ser sob a forma da cooperativa.
Com isso, já elevaríamos o nível de consciência, porque quando o cidadão participa de uma cooperativa ele se transforma em outro cidadão. Participa de assembléia... E tem emprego para o jovem - porque o jovem, filho de camponês, não quer pegar na enxada. E ele tem razão, tem que estudar. Se houver uma política de agroindústria no interior, ele terá emprego como tratorista, analista, trabalhador de informática. Você leva profissões escolarizadas para o meio rural, ao invés de trazer a população do meio rural para as cidades.
Quarto componente do nosso projeto: a educação. Nós temos que democratizar a educação. O dado do censo agropecuário é uma porrada na nossa cara: 30% dos trabalhadores rurais brasileiros são analfabetos; 80% não terminou o ensino fundamental. Isso é inaceitável. A reforma agrária é inviável se junto você não entrar com a escola.
É isso que vai libertar as pessoas, politizá-las e transformá-las em cidadãs. Qual é a política atual? Por exemplo, financiar peruas e vãs para tirar o jovens do interior e trazer para a cidade. Isso é uma loucura, uma agressão cultural, econômica e um desperdício de dinheiro. O menino fica duas horas para ir e mais duas para voltar.
Quinto aspecto: mudar a matriz tecnológica do campo. Ao invés de utilizar a matriz atual do agronegócio - já condenada porque baseada só em mecanização intensiva e agrotóxico que não tem futuro (eles mesmos dizem isso) – temos que mudar para uma matriz que consiga aumentar a produtividade do trabalho e também a física, dos hectares, sem agredir a natureza. Genericamente, nós utilizamos o conceito de agroecologia. As pessoas a concebem através de técnicas agrícolas para aumentar a produção do trabalho e física, sem agredir o meio ambiente.
A vantagem do Brasil é que nós temos já um suporte científico acumulado, nas universidades, inclusive, que nos dá base científica para fazer a agroecologia.
Recentemente visitei o sítio Catavento, uma área recomendada pela querida Ana Maria Primavesi, uma das grandes cientistas e agrônomas brasileiras a meia hora do aeroporto de Viracopos (Campinas-SP). Lá, 36 hectares produzem hortigranjeiros sem nenhum grama de agrotóxico. É uma maravilha. Todos os dias eles enchem um caminhãozinho com três toneladas de produtos. Portanto, está mais do que provado, nós temos conhecimento científico para esse tipo de produção.
Aproveito, inclusive, para fazer uma denúncia. Em relação aos produtos orgânicos, os supermercados já perceberam que classe média está cada vez mais consciente de que a saúde vem em primeiro lugar. Aí vem a colocação clássica: “produzir orgânico é muito caro”. Isso é mentira. Muito pelo contrário! Produzir orgânico é mais barato.
O problema é que como as redes de supermercados estão monopolizadas e já sacaram que o produto orgânico é um nicho de alta renda, colocam a taxa de lucro lá em cima. Fui lá em julho e esse companheiro do sítio Catavento me mostrou: estava produzindo tomate em pleno inverno com uma estufa. Ele estava vendendo para o Pão de Açúcar a R$ 3,70 o quilo de tomate e a dona Maria estava comprando a R$ 17 o mesmo tomate em São Paulo. O supermercado sacou o nicho e colocou sua taxa de lucro lá em cima. Não é mais caro.
Nós podemos produzir em escala, já temos tecnologia. Um dos especialistas que diz isso é o prof. Luis Carlos Pinheiro, ex-presidente da EMBRAPA. Inclusive, ele está nos assessorado no Paraná para produzirmos em áreas 500 a mil hectares leite orgânico sem nenhum tratamento químico de medicamento para as vacas.
►Nesse quadro que você descreve, como fazemos reforma agrária, na base da pressão e da luta, é completamente irracional. Assentar 300 pessoas aqui e mais 300, duzentos km lá na frente, é inviável. E quanto à assistência técnica, estrada, educação na zona rural, melhorou alguma coisa além do crédito para a agricultura familiar? Afinal, a questão da assistência técnica é fundamental na agroindústria.
Há dois aspectos, o primeiro foi o desmonte que o Fernando Henrique fez. No caso da política agrícola foi mais sério, porque eles acabaram com todo o serviço público agrícola. Portanto, pegamos essa herança maldida. No caso da assistência técnica, o governo Lula ampliou os convênios para que ONGs e cooperativas dessem essa assistência. Resultado: o público atendido aumentou, mas o método continua um atraso.
Nós defendemos que só é possível universalizar e ter uma direção política para a assistência técnica se for estatal.
►Um órgão nacional?
Um órgão nacional, que faça convênios com as EMATERs (empresas estaduais agrícolas de assistência, tecnologia e extensão rural). Contrate os funcionários para esse serviço público pela CLT. Não precisa de concursos públicos, nem de estabilidade. Pode até colocar alguns condicionantes, por exemplo, o sujeito para ser agrônomo da assistência técnica tem que morar no interior, ou não pode morar em cidades com mais de 50 mil habitantes.
Hoje, temos mais de 400 entidades conveniadas pelo Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) voltadas à assistência técnica. Isso a direitona não vê, fica procurando apenas as que são do MST. Porém, isso não resolve o problema, apenas amplia o público. O problema só se resolve com uma assistência técnica pública.
No que houve melhorias? Na Companhia Nacional de Abastecimento (CONAB) que voltou a ser uma empresa de abastecimento. A CONAB tinha sido sucateada completamente e sua recuperação é o melhor legado que a gestão Lula deixará, porque ela conseguiu formatar novos programas voltados exclusivamente para a agricultura familiar. Aí, nota-se a diferença.
Quando você tem uma empresa pública que atua com uma orientação e quando não tem. Não é para todo mundo, mas para o pequeno agricultor. Então, a CONAB está desenvolvendo vários programas de compra, seja antecipada, seja direta do agricultor. Isso é tudo o que o camponês precisa para trabalhar, produzir e saber que tem gente que irá comprar.
O camponês é produtor, não é vendedor. Quanto tem que ir para o mercado está ferrado. Repito, uma empresa estatal com um sistema econômico montado dá certo. Aí tem que ampliar, botar dinheiro em cima, porque todo o dinheiro que você botar na CONAB vira alimento e vai impulsionar esse ciclo.
Combinado com a revigoração da CONAB, temos a lei dos 30% - ou seja, 30% da merenda escolar tem que ser de origem da agricultura familiar. Essas duas medidas, CONAB e os 30%, foram avanços muito grandes. Em terceiro lugar, sem dúvida, o programa Luz para Todos, e espero que até o fim do governo seja praticamente universalizado o acesso à energia elétrica.
Nós também apresentamos dois programas complementares à política agrícola que tiveram pouca ressonância. O primeiro foi o programa de habitação - muito difícil - em que procuramos misturar o INCRA com a Caixa Econômica Federal (CEF). Veja que nem há problemas de recursos. Com 15 mil nossos companheiros constroem casas de dar inveja à classe média urbana. Mas falta desenvolver uma metodologia.
Nós precisamos construí-la nos próximos meses para universalizar. Começamos brigando, já no primeiro mandato (do presidente Lula), conseguimos avanços no segundo e acredito que teremos construído umas 40 mil casas. Mas, isso não é nada perto do que significa um programa como esses. A primeira coisa que uma pessoa quer é uma casa com luz elétrica. Isso fixa o homem no campo. Se eu sei que meu primo está pagando aluguel para morar numa favela na cidade, por que vou largar minha casa? Essa é uma condicionante também para os filhos e envolve uma série de questões, auto-estima, saúde etc.
O segundo, também apresentamos um grande programa de reflorestamento. É barato. Nós poderíamos fazer um programa de dois hectares por pequeno agricultor e você refloresta esse país, melhora a qualidade de vida, combate as mudanças climáticas, inclusive, caminhando na contramão do agronegócio que quer acabar com as reservas para desmatar ainda mais. (O reflorestamento) evita essa estupidez que fizeram em Santa Catarina, onde não aceitam mais os 20 metros em cada margem de rio.
►Se 2 milhões de pequenos agricultores plantarem 2 hectares, serão 4 milhões hectares só aí.
[Por ano. Aí o cara começa a perceber a mudança da qualidade e diz: “os outros dois, mais outros dois, eu vou plantar”.
►João Pedro, em relação à educação, não teve nenhum programa novo, pedagogia nova para a educação rural e no campo nesses seis anos e meio (governo Lula)?
[ Do ponto de vista de concepção, nós tivemos sorte. Os dois mandatos do governo Lula contaram com ministros que tem uma visão diferenciada. Do ponto de vista de filosofia da educação mudou. É outro papo. Estamos negociando com um governo que tem percepção, mas você não consegue universalizar as políticas para o meio rural.
Talvez agora com o novo padrão salarial dos professores, nós tenhamos uma mudança, que ainda não é perceptível. Há professores do Piauí que ganham R$ 75 reais/mês Então, a lei (piso nacional de R$ 950,00 para professor instituído pelo presidente Lula) dará um salto na qualificação dos professores. Também contamos com a metodologia em programas pontuais do Programa Nacional de Educação para Reforma Agrária (PRONERA), mas que não conseguiu universalizar.
Qual o grande contribuição do PRONERA? Ele tem uma metodologia, a da alternância - uma conquista nossa - para os jovens do meio rural, seja para filho de assentado, seja para o do pequeno agricultor que ainda não tem acesso, ou para professores do meio rural. Você tem que criar cursos superiores na forma de alternância porque o cidadão não pode entrar no vestibular comum e vir para a cidade todas as noites na escola. O ensino superior no meio rural tem que ser diferenciado.
Primeiro, porque o jovem terá de ir para a cidade todos os dias; segundo, os melhores cursos estão nos municípios acima de 300 mil habitantes; terceiro, se ele resolver todos esses impasses, ao terminar o curso, não volta mais.
Então, o que é a alternância? Você tem dois meses de férias, depois concentra um período com aula, daí volta a ter o trabalho normal como professor ou militante e daqui a três meses volta de novo. Com esse programa – conquistado ainda no final do governo FHC, sob muita crítica, porque diziam que era “picaretagem” – durante a gestão Lula, nós consolidamos uma experiência.
Hoje, podemos provar que a alternância não altera a qualidade. Muito pelo contrário, ao concentrar o conhecimento em períodos, você pode trazer especialistas daquela área. A alternância consumou-se como um método.
Agora, o PRONERA hoje é um departamento com só três funcionários dentro do INCRA. Administra recursos alocados para universidades públicas e depende, evidentemente, da boa vontade da universidade. Nós temos que conquistar cada curso. Sem falar que se um promotor elitista entrar na justiça alegando que aquele curso é discricionário, dependendo do juiz federal que está no plantão, o cara dá uma laminar e o curso é suspendido.
Por exemplo, o único curso de direito que temos na universidade de Goiás Velho – feito com vestibular e inclusive com a presença do ministro Eros Grau, na inauguração, público e notório que se trata de uma universidade de qualidade, federal - os alunos fizeram vestibular, submeteram-se ao método da alternância e o promotor resolveu entrar na Justiça. Esse tipo de coisa gera um problemão! Você tem que recorrer, o INCRA tem que entrar. Então, qual é a nossa reivindicação? O PRONERA tem que ser um programa do MEC que consiga universalizar. Aí ninguém precisa ir lá convencer a universidade. Ela já deveria oferecer dentro do seu plano de trabalho, esses cursos na forma de alternância.
Isso nós estamos corrigindo. Quero também citar como um lado positivo, as três universidades que estamos criando agora uma com o MERCOSUL, a Fronteira Sul e a Universidade Federal do São Francisco em Petrolina (PE). A Fronteira Sul, se fosse pela nossa vontade, daríamos o nome de Universidade Federal Guarani, porque o território é o mesmo (das missões indígenas jesuíticas, no Rio Grande do Sul). Seria uma bela homenagem aos nossos antepassados que habitaram aquele território. E ela vai ser a primeira universidade federal com campus em três estados.
As três universidades têm uma vocação rural e estão mais em diálogo com os movimentos sociais. Nós, portanto, estamos insistindo para que na grade delas, em seus cursos, já se incorpore a experiência da alternância - na forma de freqüentar, no tipo de curso. Não pode ser engenheiro agrônomo apenas, mas tem que ser um engenheiro formado em agronomia agroecológica. Na área de educação o que precisaremos fazer é isso. E precisamos de uma campanha séria para erradicar o analfabetismo no meio rural.
►A oposição conseguiu o número de assinaturas necessário para que fosse instalada a CPI do MST. Como vocês estão avaliando isso?
Nós vemos de duas formas: primeiramente, ela está dentro do contexto maior da luta de classes no Brasil. Parte daquela parcela da direita parlamentar brasileira, encrustrada lá no parlamento, que vive querendo criar factóides para antecipar a disputa eleitoral. Como o próprio deputado Ronaldo Caiado (DEM-GO) revelou, o principal objetivo da CPI do MST é provar que o governo vai destinar dinheiro para o MST para fazer campanha para a (ministra) Dilma Rousseff. Isso é ridículo! Mas, ele falou isso na tribuna. Revela, então, as motivações ideológicas dele, ou seja, criar factóides para fazer uma disputa eleitoral e política besta.
Um segundo aspecto na análise dessa CPI, aqui mais da luta de classes, é que eles quiseram peitar o governo quando nós fizemos essa parceria na portaria para mudar os índices de produtividade. Estes precisam ser atualizados por força de lei. A lei agrária determina – a de 1993 – que os índices tinham que ser atualizados a cada dez anos. E os índices atuais que o INCRA usa são de 1975. Uma piada.
Então eles quiseram dar o troco. E contra o governo, não contra nós, para criar um constrangimento, um jogo de troca aí. Tudo contra a possibilidade de atualizar o índice de produtividade. Então se começa a CPI num palanque ideológico contra nós. Evidentemente, sempre que instalam uma CPI fazem o que querem. Todas as entidades que estão eles estão dizendo que tem problemas já foram investigadas pela CPI da s ONGs e tiveram sigilo quebrado. É como se diz no interior, eles estão vendo chifres em cabeça de mula. Mas, esse é o papel da direitona que quer proteger os seus privilégios.
►Como vocês estão vendo a pesquisa da Confederação Nacional da Agricultura (CNA) sobre assentamento rural?
Isso não merece nem comentário. É uma fraude que não tem pé, nem cabeça. Não é nem uma amostra representativa. Entre oito mil assentamentos que há no país, eles (a CNA) escolheram só nove e ao seu bel prazer. Um deles, em Pernambuco, era da época da ditadura, emancipado em 1975.
A única explicação que me vem é que a CNA fez algum jogo de aliança política com o IBOPE, talvez pagando dívidas do serviço que o IBOPE fez na época da campanha da Katia Abreu (senadora do DEM do Tocantins). É a única explicação que nos ocorre para tamanho absurdo. A isso (à pesquisa) todos os pesquisadores sérios reagiram. Isso depõe contra o IBOPE. O que ficou claro é que ele perdeu sua credibilidade.
Como ele pode ter se prestado a esse tipo de jogo rasteiro? Pior ainda, divulgaram a pesquisa deles uma semana depois do Censo Agropecuário que não é uma simples pesquisa – no censo, os pesquisadores do IBGE vão em todos os estabelecimentos agropecuários desse país.
A pesquisa da CNA, repito, não tem pé, nem cabeça. De 8 mil assentamentos, pegaram nove. Um total de mil famílias de nove assentamentos, num universo de 1 milhão de famílias em oito mil assentamentos.
►Sobre o episódio em São Paulo, na fazenda do Grupo Cutrale, qual a avaliação que você está fazendo? A mídia conservadora o transformou em escândalo, durante quase uma semana, ou mais, isso ocupou os principais noticiários. Qual a sua avaliação, houve erros na ocupação da fazenda?
A CUTRALE que tem mais de 30 fazendas em São Paulo, somando mais de 50 mil hectares, está em dívida com a Justiça Federal. Aquela área foi comprada de um grilo e eles sabiam. Eles partiram para o risco de comprar uma área grilada, contando com as influências políticas que tem na República do Brasil.
Como estão acostumados com o monopólio da laranja, encheram de laranja para consolidar que a área era produtiva etc. Mas toda aquela área onde houve a ocupação - nem é só da Cutrale - é o chamado grande grilo (terras griladas) do Monção. A origem desse grilo é de terras que a União comprou em 1910 - portanto houve dinheiro público na compra da área original – para um projeto de colonização para famílias japonesas que não deu certo. Então, as terras foram ficando e houve esse grilo. A ocupação feita agora pelos sem-terra tinha a vontade política, o objetivo de fazer essa denúncia. Nisso a ocupação foi eficaz.
Agora, o fato de terem derrubado laranjais foi um erro dos companheiros que estavam lá. Nós que estamos no meio da briga, entendemos o desespero das famílias que estão há cinco anos querendo ter a terra e sabem que essa terra é grilada. O INCRA mesmo disse: “essa terra é da União”. Então o cara, o sem-terra chega na fazenda e quer plantar feijão. Evidentemente, a direita soube explorar muito bem esse fato, a partir de um erro nosso.
Mais dia, menos dia, iriam pegar qualquer erro nosso e exponenciar ao máximo. É o caso das imagens (exibidas na mídia). Elas foram feitas no dia 28/09, eles pensaram "quando vamos usar?" E esperaram, dias e dias, para fazer essa superexposição. Aquilo não foi uma reportagem sobre a ocupação, apresentada no dia em que ela ocorreu. Fora o fato de aquilo ter sido filmado pelo serviço secreto da PM. Não foi nenhuma reportagem da Globo que estava lá.
Um segundo aspecto: todas as outras imagens de depredação de trator, invasão das casas dos funcionários são mentira. Aquilo é manipulação. Nós os desafiamos publicamente a constituirem uma comissão independente - e com o Ministério Público, se quiser - e a irem lá e fazer a perícia para descobrir desde quando esses tratores estão desmontados. Isso é muito fácil de verificar. Que a comissão pergunte para as famílias (de empregados do grupo Cutrale) se algum sem-terra entrou na casa deles.
Mas, houve o erro, evidentemente, e com esse erro, a burguesia da elite econômica, que tem o monopólio da comunicação, está explorando. E nós estamos pagando caro, porque com isso, criaram o sentimento que levou ao recolhimento e obtenção das assinaturas para a CPI.
►O ex-ministro da Fazenda tucano, Luiz Carlos Bresser-Pereira e o ex-presidente da República, José Sarney, hoje presidente do Senado, apontaram tanto no caso da CPI, quanto na pesquisa dos assentamentos feita pelo IBOPE, por encomenda da CNA , a tentativa de criminalizar o MST. Qual a a avaliação que vocês fazem?
Esse tema da criminalização nós temos que entender direito como é usado. Não é uma coisa que houve, ou que há, numa época de ditadura. Nós já estávamos na democracia quando o latifúndio, para se proteger, iniciou um processo de assassinato e de violência física contra quem lutava pela reforma agrária. Esse período nós já passamos. A violência física diminuiu, até por conta da nossa forma de organização. A criminalização agora é muito mais no sentido ideológico e político. É com o objetivo de desmoralizar quem faz luta social. Esse é o sentido da criminalização do MST e dos demais movimentos sociais.
Daí porque a Rede Globo, o Estadão e a VEJA se transformaram no principal instrumento dessa fase de criminalização. Na fase anterior, eram as armas; agora, o método de tentar nos desmoralizar é através da imprensa. Nós temos tido o cuidado de não criar uma paranóia. Mas, o objetivo desses veículos e daqueles cujos interesses eles representam é muito mais no sentido de deslegitimar e desmoralizar quem faz a luta social. Independente de quem a fizer. Eles também fazem o mesmo quando tem ocupação de sem teto e outras coisas. A tentativa não é de criminalizar só o MST, é criminalizar todos os movimentos sociais.
►É, agora, nas manifestações das favelas em São Paulo, nas dos bairros na periferia, contra a PM. Dizem que tudo é baderna. É a maneira de desqualificarem o caráter social e político da manifestação contra a violência da polícia e contra a falta de atuação do Estado. Os jornais só dizem que é baderna e que tem que ser reprimido. Para eles, está tudo certo (a repressão) e ainda registram “infelizmente morreu uma criança”.
O que eles fizeram em relação a áreas em que há despejo, por exemplo, o naquela área em Embu.
►Aquilo foi articulado para ter apoio dos meios de comunicação. É um exemplo da polícia para ser aplicado no país depois. Vão calcar no eleitorado de direita, conservador. Dizer que o bom é aquele exemplo do Serra em São Paulo.
Da governadora Yeda Crusius no Rio Grande do Sul também. A dona Yeda já começou (a governar, em 2007) sem base social. E como ela se posicionou? Transformou a Brigada Militar (PM gaúcha) em cão de guarda do capital. Chamou os setores do Ministério Publico fascistas, claramente afinados com sua proposta ideológica e, financiada por grandes grupos econômicos, tentou impor um governo ditadorial.
Ela se desmoralizou porque ficou evidente. No governo dela ficou tudo tão centralizado, que ao ultrapassar o limite da corrupção, veio a público e ela não pode controlar. Controla a parte do ministério público estadual, mas não o federal que, inclusive, fez as denúncias (de improbidade administrativa e manipulação de concorrência e licitações) contra ela.
Acho, então, que tanto o artigo do Sarney quanto o do Bresser Pereira foram duas manifestações das mais lúcidas desse campo da elite intelectualizada brasileira, porque eles comentaram a razão dos fatos e não simplesmente a questão ideológica.
►Qual a avaliação política que voce faz da atuação do MST nesse período do governo Lula? Houve fortalecimento? O movimento está mais ou menos forte, mais ou menos organizado, com mais ou menos bases e apoio da sociedade?
Nos últimos anos o MST consolidou um acúmulo de forças própria. E foi correta a nossa política em relação ao governo Lula, de manter autonomia política para resguardar a saúde que deve ter um movimento social. Ou seja, nem caímos num adesismo de "agora, como elegemos o Lula..." – toda a base dos sem-terra votou no Lula – nem nos transformamos em puxa-sacos, ou chapas-branca como se diz.
Ao mesmo tempo, não caímos no que certos setores da esquerda caíram de “ah, o governo Lula não conseguiu mudar a política econômica, então vamos para a oposição e tudo o que vier do governo Lula é ruim”. Alguns movimentos sociais fizeram essa inflexão. Foram para a oposição. O que nós dizemos é que o papel de apoio ou oposição é para partidos políticos. Movimento social tem que ser autônomo. Seja qual for o governo ou o Estado, temos que ter autonomia.
Nós pagamos caro por essa política. Amigos que queriam que fossemos adesistas, nos chamaram de esquerdistas. E os esquerdistas disseram “não, vocês são muito adesistas”. E difícil, mas nós estamos convencidos de que essa foi a política que, inclusive, nos salvou, porque senão, provavelmente, o movimento teria tido sérios problemas de crescimento. Essa foi a situação.
Agora, em relação à reforma agrária, penso que ela não depende mais do MST. No começo do governo Lula, havia aquela euforia. No início de 2003, em torno de 200 mil famílias foram para acampamentos, porque havia uma vontade política da nossa parte e achamos, "agora com o Lula", que haveria o reacenso da massa. E não houve.
Então, a reforma agrária não depende mais do MST, mas de uma nova correlação de forças na sociedade. Depende de um reacenso do movimento de massas porque a classe trabalhadora que vive no campo é minoritária. Nós não alteramos mais a correlação de forças. Ela só irá ser alterada se houver movimentação social na cidade.
Essa é a nossa tragédia. Nós somos um movimento com unidade, temos clareza política, sabemos onde queremos ir, mas não temos força própria suficiente para alterar a correlação. Temos que esperar que a turma da cidade também faça um movimento que reative o movimento de massas e que aí sim, altere a correlação de forças para pressionarmos a realização de uma reforma agrária mais rápida.
Assim, os avanços da reforma agrária não dependem nem do MST, nem só da luta social no campo. Dependem da luta social no Brasil inteiro.
►Como vocês estão vendo a eleição de 2010, na medida em que apoiaram direta ou indiretamente a candidatura Lula, e levando em consideração as conseqüências para a América Latina, se o projeto político que o Lula representa for derrotado no Brasil?
Não temos feito um debate mais eleitoral. Estamos tendo cuidado com isso. O nosso debate interno ainda é sobre a política geral, a luta de classes e a correlação de forças. Em termos gerais, te respondo pelo que é da tradição da nossa política: primeiro, manter nossa autonomia; segundo, continuar nosso trabalho político e ideológico de estimular – e é assim que nossa militância se comporta – o eleitor a sempre votar tanto em nível federal, quanto estadual, quanto municpal, nos candidatos mais progressistas e que defendem a reforma agrária; terceiro, há uma vontade e decisão política de barrar a volta do neoliberalismo.
Estamos e somos contra os projetos de restauração do neoliberalismo. Sem dúvida, o MST estará nas primeiras trincheiras da batalha. Fazemos questão de ajudar a contribuir para que o neoliberalismo não se restaure aqui no Brasil.
Os jornalistas perguntam: “vocês são da Marina, da Dilma, do Ciro etc”, o que respondemos é que não nos cabe discutir nomes agora. O que temos que estimular na sociedade brasileira é a discussão de um projeto para que ao redor dele as pessoas votem com consciência.
Nós não caímos nos simplismo de vontades eleitorais, ou partidárias, ou por afinidades pessoais. Tem gente que diz: "pessoalmente a Dilma é muito parecida com o Ciro... " Isso não explica nada! Então, até para não cair nesse tipo de reducionismo, nós achamos que o debate político a ser feito daqui a até outubro do ano que vem tem que ser sobre a necessidade de um projeto para o país, para que as pessoas saibam o que está em jogo e que tipo de projeto nós temos que fazer avançar daqui para a frente. Esse é o debate que estamos fazendo entre nós.
Evidentemente, que no caso do Rio Grande do Sul, a batalha será mais dura, porque por todo o uso que fez da Brigada Militar e do ministério publico estadual, o projeto da Yeda (Crusius) foi não só o da restauração do neoliberalismo, mas dos fascistas. Depende de cada Estado, o maior ou menor engajamento da militância. E isso se dará, também, em função das candidaturas estaduais. Os governadores tem muito peso nas lutas sóciais do campo, já que quem nos reprime são as polícias estaduais.
►Como o MST é um movimento com grande inserção internacional, inclusive pela Via Campesina, como vocês avaliam o cenário internacional após dez meses da eleição de Barack Obama e um pouco também sobre a América Latina e a relação com as eleições do ano que vem?
Nós estamos muito preocupados. Estamos vindo de dez anos de avanços das forças progressistas, mas esse avanço registrado a partir de 1999 com a subida do presidente Hugo Chávez (Venezuela) até hoje, não veio acompanhado com o reacenso do movimento de massas. Talvez, na Bolívia aconteceu, mas nos demais países não. Isso criou uma dificuldade maior. Ao se dar conta de que as massas não vieram para o reacenso, para participar mais da atividade, evidentemente, o império está tentando reestaurar o seu projeto para a América Latina.
Os EUA tinham sido derrotados nesses dez anos. Foram derrotados na ALCA e agora tentam recompor esse projeto, que inclusive, independe da postura pessoal do Obama. O projeto do império é o do capital imperialista, do Estado belicista norte-americano. Há alguns dias, ouvi uma palestra na qual o orador dizia que toda a tentativa da economia norteamericana de sair da crise é aumentando a indústria bélica.
Nem é pela saúde, nem por um Bolsa Família, eles poderiam criar uma bolsa família para os pobres norte-americanos e incentivar o mercado interno ou frear as importações da China. Não. A alternativa principal que o capital americano está tomando para sair da crise é o aumento da sua produção bélica e com isso, ter mais armas e munição.
Isso é um perigo, porque eles vão estimular conflitos até para reativar sua economia. Nesse cenário, nós vemos os EUA acelerando, mudando o passo. O caso de Honduras, por exemplo, todos sabemos que a base americana se envolveu, o embaixador se envolveu. No Panamá, idem. Essas bases da Colômbia (seis norte-americanas) são uma ofensa a todo o continente, um caso inadmissível.
Nessa questão concordamos com a avaliação do Chávez, de que é uma tentativa de transformar a Colômbia numa Israel na América do Sul. Sobretudo uma tentativa de levar a uma guerra fria entre a Colômbia e a Venezuela. É o pior dos mundos porque obriga a Venezuela a gastar dinheiro público em armamento, tanque e helicóptero ao invés de comprar casa e construir metrô.
Então, estimula-se uma guerra fria regional para barrar o processo venezuelano. Pelo que se vê pelo Chile e o Peru, trata-se de reativar as direitonas locais para tentar retomar o controle. Não se sabe até que ponto essa mesma direita americana vai insuflar nossas eleições. É possível que aqui no Brasil também. Com isso, o tom ideológico aumenta.
►Fonte: Blog de Zé Dirceu
► www.PascualSerrano.net
Se permite la reproducción de todos los textos de esta página citando autor y fuente
►Manifesto em defesa do MST
Documento assinado por personalidades do Brasil e de vários países defende Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra de ataques que vem sofrendo na mídia brasileira e nos setores conservadores do Congresso Nacional. "Há um objetivo preciso nos ataques ao MST: impedir a revisão dos índices de produtividade agrícola - cuja versão em vigor tem como base o censo agropecuário de 1975 - e viabilizar uma CPI sobre o movimento. Com tal postura, o foco do debate agrário é deslocado dos responsáveis pela desigualdade e concentração para criminalizar os que lutam pelo direito do povo", diz o texto.
Redação - Carta Maior
►Contra a violência do agronegócio e a criminalização das lutas sociais
As grandes redes de televisão repetiram à exaustão, há algumas semanas, imagens da ocupação realizada por integrantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) em terras que seriam de propriedade do Sucocítrico Cutrale, no interior de São Paulo. A mídia foi taxativa em classificar a derrubada de alguns pés de laranja como ato de vandalismo.
Uma informação essencial, no entanto, foi omitida: a de que a titularidade das terras da empresa é contestada pelo Incra e pela Justiça. Trata-se de uma grande área chamada Núcleo Monções, que possui cerca de 30 mil hectares. Desses 30 mil hectares, 10 mil são terras públicas reconhecidas oficialmente como devolutas e 15 mil são terras improdutivas. Ao mesmo tempo, não há nenhuma prova de que a suposta destruição de máquinas e equipamentos tenha sido obra dos sem-terra.
Na ótica dos setores dominantes, pés de laranja arrancados em protesto representam uma imagem mais chocante do que as famílias que vivem em acampamentos precários desejando produzir alimentos.
►Bloquear a reforma agrária
Há um objetivo preciso nisso tudo: impedir a revisão dos índices de produtividade agrícola - cuja versão em vigor tem como base o censo agropecuário de 1975 - e viabilizar uma CPI sobre o MST. Com tal postura, o foco do debate agrário é deslocado dos responsáveis pela desigualdade e concentração para criminalizar os que lutam pelo direito do povo. A revisão dos índices evidenciaria que, apesar de todo o avanço técnico, boa parte das grandes propriedades não é tão produtiva quanto seus donos alegam e estaria, assim, disponível para a reforma agrária.
Para mascarar tal fato, está em curso um grande operativo político das classes dominantes objetivando golpear o principal movimento social brasileiro, o MST. Deste modo, prepara-se o terreno para mais uma ofensiva contra os direitos sociais da maioria da população brasileira.
O pesado operativo midiático-empresarial visa isolar e criminalizar o movimento social e enfraquecer suas bases de apoio. Sem resistências, as corporações agrícolas tentam bloquear, ainda mais severamente, a reforma agrária e impor um modelo agroexportador predatório em termos sociais e ambientais, como única alternativa para a agropecuária brasileira.
►Concentração fundiária
A concentração fundiária no Brasil aumentou nos últimos dez anos, conforme o Censo Agrário do IBGE. A área ocupada pelos estabelecimentos rurais maiores do que mil hectares concentra mais de 43% do espaço total, enquanto as propriedades com menos de 10 hectares ocupam menos de 2,7%. As pequenas propriedades estão definhando enquanto crescem as fronteiras agrícolas do agronegócio.
Conforme a Comissão Pastoral da Terra (CPT, 2009) os conflitos agrários do primeiro semestre deste ano seguem marcando uma situação de extrema violência contra os trabalhadores rurais. Entre janeiro e julho de 2009 foram registrados 366 conflitos, que afetaram diretamente 193.174 pessoas, ocorrendo um assassinato a cada 30 conflitos no 1º semestre de 2009. Ao todo, foram 12 assassinatos, 44 tentativas de homicídio, 22 ameaças de morte e 6 pessoas torturadas no primeiro semestre deste ano.
►Não violência
A estratégia de luta do MST sempre se caracterizou pela não violência, ainda que em um ambiente de extrema agressividade por parte dos agentes do Estado e das milícias e jagunços a serviço das corporações e do latifúndio. As ocupações objetivam pressionar os governos a realizar a reforma agrária.
É preciso uma agricultura socialmente justa, ecológica, capaz de assegurar a soberania alimentar e baseada na livre cooperação de pequenos agricultores. Isso só será conquistado com movimentos sociais fortes, apoiados pela maioria da população brasileira.
►Contra a criminalização das lutas sociais
Convocamos todos os movimentos e setores comprometidos com as lutas a se engajarem em um amplo movimento contra a criminalização das lutas sociais, realizando atos e manifestações políticas que demarquem o repúdio à criminalização do MST e de todas as lutas no Brasil.
Assinam esse documento:
Eduardo Galeano - Uruguai
István Mészáros - Inglaterra
Ana Esther Ceceña - México
Boaventura de Souza Santos - Portugal
Daniel Bensaid - França
Isabel Monal - Cuba
Michael Lowy - França
Claudia Korol - Argentina
Carlos Juliá – Argentina
Miguel Urbano Rodrigues - Portugal
Ignacio Ramonet - Espanha
Julio Gambina - Argentina
Fernando Martinez Heredia - Cuba
Carlos Aguilar - Costa Rica
Ricardo Gimenez - Chile
Pedro Franco - República Dominicana
Arturo Bonilla Sánchez - México
do Brasil:
Antonio Candido
Ana Clara Ribeiro
Anita Leocadia Prestes
Andressa Caldas
André Vianna Dantas
André Campos Búrigo
Augusto César
Carlos Nelson Coutinho
Carlos Walter Porto-Gonçalves
Carlos Alberto Duarte
Carlos A. Barão
Cátia Guimarães
Cecília Rebouças Coimbra
Ciro Correia
Chico Alencar
Claudia Trindade
Claudia Santiago
Chico de Oliveira
Demian Bezerra de Melo
Emir Sader
Elias Santos
Eurelino Coelho
Eleuterio Prado
Fernando Vieira Velloso
Gaudêncio Frigotto
Gilberto Maringoni
Gilcilene Barão
Irene Seigle
Ivana Jinkings
Ivan Pinheiro
José Paulo Netto
Leandro Konder
Luis Fernando Veríssimo
Luiz Bassegio
Luis Acosta
Luisa Santiago
Lucia Maria Wanderley Neves
Marcelo Badaró Mattos
Marcelo Freixo
Maria Rita Kehl
Marilda Iamamoto
Mariléa Venancio Porfirio
Mauro Luis Iasi
Maurício Vieira Martins
Otília Fiori Arantes
Paulo Arantes
Paulo Nakatani
Plínio de Arruda Sampaio
Plínio de Arruda Sampaio Filho
Renake Neves
Reinaldo A. Carcanholo
Ricardo Antunes
Ricardo Gilberto Lyrio Teixeira
Roberto Leher
Roberto Schwarz
Sara Granemann
Sandra Carvalho
Sergio Romagnolo
Sheila Jacob
Virgínia Fontes
Vito Giannotti
Para subscrever esse manifesto, clique no link:
http://www.petitiononline.com/boit1995/petition.html
►> LEIA MAIS | Internacional | 29/10/2009
Leer más
Quarta-feira, Outubro 28, 2009
Tulse Luper Suitcases - Peter Greenaway
(...) el rizoma se remite a un mapa que debe producirse, construirse, siempre desmontable, conectable, invertible, modificable, con entradas y salidas múltiples, con sus líneas de fuga.
(Gilles Deleuze)
♥♪
"Do homem a arte é: foder e pensar.
(Mas o luxo do homem é: o riso)."
Bertolt Brecht
♪♣♪♥
“A poesia é um sistema luminoso de sinais...”
León Felipe♥
“O verso anterior ao meu é uma tocha que trazia na mão o poeta precedente que me procurava, e o verso que me segue é uma luz que está incendiando outro nas sombras espessas da noite, vendo os meus sinais.”
León Felipe♥

Marco entra numa cidade; vê alguém numa praça que vive uma vida ou um instante que poderiam ser seus; ele podia estar no lugar daquele homem se tivesse parado no tempo tanto tempo atrás, ou então se tanto tempo atrás numa encruzilhada tivesse tornado uma estrada em vez de outra e depois de uma longa viagem se encontrasse no lugar daquele homem e naquela praça.
Agora, desse passado real ou hipotético, ele está excluído; não pode parar; deve prosseguir ate uma outra cidade em que outro passado aguarda por ele, ou algo que talvez fosse um possível futuro e que agora é o presente de outra pessoa.
Os futuros não realizados são apenas ramos do passado: ramos secos.
— Você viaja para reviver o seu passado? — era, a esta altura, a pergunta do Gran Khan, que também podia ser formulada da seguinte maneira:
— Você viaja para reencontrar o seu futuro?
E a resposta de Marco:
— Os outros lugares são espelhos em negativo. O viajante reconhece o pouco que é seu descobrindo o muito que não teve e o que não terá.”
Ítalo Calvino - Cidades Invisíveis - p.28
«do perigo que corremos de perder uma faculdade humana fundamental: o poder de focar as visões de olhos fechados, de fazer brotar cores e formas a partir de um alinhamento de caracteres alfabéticos negros numa página em branco, de pensar por imagens»
Calvino, Italo, 1923 - 1985 - Seis propostas para o próximo milênio: Lições Americanas/Italo Calvino; tradução Ivo Barroso. - São Paulo: Companhia das Letras, 1990
♪♣♪♥

imago:
tulselupernetwork.com
Tulse Luper Suitcases
by Peter Greenaway
As Maletas de Tulse Luper

A las rubias envidias
porque naciste con color moreno,
y te parecen ellas blancos ángeles
que han bajado del cielo.
¡Ah!, pues no olvides, niña,
y ten por cosa cierta,
que mucho más que un ángel siempre pudo
un demonio en la tierra.
Rosalía de Castro
♪♣♪♥
Improvável
Será brando o rigor, firme a mudança,
Humilde a presunção, vária a firmeza,
Fraco o valor, cobarde a fortaleza,
Triste o prazer, discreta a confiança;
Terá a ingratidão firme lembrança,
Será rude o saber, sábia a rudeza,
Lhana a ficção, sofística a lhaneza,
Áspero o amor, benigna a esquivança;
Será merecimento a indignidade,
Defeito a perfeição, culpa a defensa,
Intrépito o temor, dura a piedade,
Delito a obrigação, favor a ofensa,
Verdadeira a traição, falsa a verdade,
Antes que vosso amor meu peito vença.
Soror Violante do Céu
♪♣♪♥
«Marco Polo descreve uma ponte, pedra a pedra.- Mas qual é a pedra que sustém a ponte? - pergunta Kublai Khan.
- A ponte não é sustida por esta ou aquela pedra - responde Marco, - mas sim pela linha do arco que elas formam.
Kublai Khan permanece silencioso, refletindo. Depois acrescenta:
- Porque me falas das pedras? É só o arco que me importa.
Polo responde:
- Sem pedras não há o arco.»
♪♣♪♥
As Cidades Invisíveis - Italo Calvinodiálogo entre Kublai Khan e Marco Polo, capítulo 7.
KUBLAI: Não sei quando você encontrou tempo de visitar todos os países que me descreve. A minha primeira impressão é que você nunca saiu deste jardim.
POLO: Todas as coisas que vejo e faço ganham sentido num espaço da mente em que reina a mesma calma que existe aqui, a mesma penumbra, o mesmo silêncio percorrido pelo farfalhar das folhas. No momento que me concentro para refletir, sempre me encontro nesse jardim, neste mesmo horário, em sua augusta presença, apesar de prosseguir sem um instante de pausa a subir por um rio verde de crocodilos ou a contar os barris de peixe salgado postos na estiva.
KUBLAI: Eu também não tenho certeza de estar aqui, passeando em meio às fontes de pórfido, escutando o eco dos jorros de água, e não cavalgando embebido de suor e sangue à frente do meu exército, conquistando os países que você irá escrever, ou decepando os dedos dos agressores que escalam a muralha de uma fortaleza assediada.
POLO: Talvez este jardim só exista à sombra das nossas pálpebras cerradas e nunca tenhamos parado: você, de levantar poeira nos campos de batalha, e eu, de negociar sacas de pimenta em mercados distantes, mas, cada vez, que fechamos os olhos no meio do alvoroço ou da multidão, podemos nos refugiar aqui vestidos com quimonos de seda para avaliar aquilo que estamos vivendo, fazer as contas, contemplar a distância.
KUBLAI: Talvez este nosso diálogo se dê entre dois maltrapilhos apelidados Kublai Khan e Marco Polo que estão revolvendo um depósito de lixo, amontoando resíduos enferrujados, farrapos, papel, e bêbados com poucos goles de vinho de má qualidade, vêem resplender ao seu redor todos os segredos do Oriente.
POLO: Talvez do mundo só reste um terreno baldio coberto de imundíciees e o jardim suspenso do paço imperial do grande Khan. São as nossas pálpebras que os separam, mas não se sabe qual está dentro e qual está fora.
♪♣♪♥
Las ciudades viven en nosotros como los amores. Son lo que fueron y lo que quisimos que fueran. Como en el amor, las construimos con el afecto, como el objeto del amor, parecen borrarse a veces del recuerdo, pero reaparecen casi siempre en el acto involuntario de la memoria. Preferiríamos verlas como las amamos y no como cambiaron al alejarnos de ellas.Aunque sufran metamorfosis, son casi siempre lo que fueron en los recuerdos de la infancia; aunque crezcan y se degraden, siguen allí como una topografía inmune a las degradaciones impuestas por el tiempo y por los hombres. Una ciudad es en principio el espacio de la infancia, de los amores, de la amistad. Topografía y arquitectura se vincularán siempre al universo afectivo de los hombres. Acaban convirtiéndose en "fundaciones mitológicas": es decir, en fundaciones sin tiempo.
Óscar Collazos
♪♣♪♥
“Há um quadro de Klee intitulado Angelus Novus. Nele está representado um anjo, que parece querer afastar-se de algo a que ele contempla. Seus olhos estão arregalados, sua boca está aberta e suas asas estão prontas para voar. O Anjo da História deve parecer assim. Ele tem o rosto voltado para o passado. Onde diante de nós aparece uma série de eventos, ele vê uma catástrofe única, que sem cessar acumula escombros sobre escombros, arremessando-os diante dos seus pés. Ele bem que gostaria de poder parar, de acordar com os mortos e de reconstruir o destruído. Mas uma tempestade sopra do Paraíso, aninhando-se em suas asas, e ela é tão forte que ele não consegue mais cerrá-las. Essa tempestade impele-o incessantemente para o futuro, ao qual ele dá as costas, enquanto o monte de escombros cresce ante ele até o céu. Aquilo que chamamos de Progresso é essa tempestade”.♪♣♪♥






Peter GreenawayAs Maletas de Tulse Luper










►AZUL(1)
Peter Greenaway
Eu era contrário ao Azul.
Eu desconfiava de sua ubiqüidade
Eu era anti-Klein (2), Yves Klein era um artista cheio de si, um poseur.
Eu costumava dizer que o azul não existe enquanto cor, que o azul do céu é uma ilusão. Isso, porque o céu não é algo concreto, mas um vazio que - como todos sabem através do fenômeno da noite e das odisséias espaciais - é negro. Se o mar é um reflexo do céu, seu azulado também é uma ilusão - ou pior - uma ilusão de uma ilusão.
O azul do olho é um truque da luz, concebido para sustentar eugenias germânicas. Se você tentasse extrair o azul do olho, não conseguiria.
Impossível reter cristais azuis ou fluido azul na palma da mão. Miosótis são azuis. Bem-me-quer, mal-me-quer azul. Já sinto o azul no cerne azulado da própria flor.
Lápis-lazúli ? Entramos na zona do difícil. O azul foi feito para ser exclusivo da Virgem Maria, colhido das minas longínquas das Montanhas Urais. A quintessência da imaginação religiosa. Jacintos, celacantos, a baleia azul - anomalias, híbridos, quimeras.
Difícil ser contrário ao azul para sempre. Continuei tentando.
Fiz um filme em Roma chamado A Barriga do Arquiteto. Eu quis jogar o jogo dos opostos. Eu quis que o filme se limitasse a dois conjuntos conceituais de cor. Primeiro, as cores do filme deveriam ser encontradas apenas no corpo humano - preto, branco, marrom, rosa, cinza, sépia - nenhum verde ou azul. Depois, as cores do filme deveriam ser estritamente relacionadas às cores da arquitetura de Roma - os muros e os telhados, os ladrilhos e o mármore. A mesma combinação de cores do corpo humano.
No filme, usamos filtros especiais para anular a cor do céu e apagar a cor das árvores. Fiz algumas raras concessões ao verde, já que o verde era a cor do inimigo. Os vilões usavam gravatas verdes e dirigiam carros verdes. Quando o corpo humano entra em decomposição, torna-se verde. Mas os limites do azul estavam se rompendo.
Eu nada tinha a ver com o "blue jay's wing" acompanhado pelo "Blue Jay Way" de George Harrison, ou com uma pena azul do rabo do pavão, e a KLM, a companhia aérea holandesa, ou o azul das asas no vôo do avião. O azul que, sombrio, se desvia para o infinito. O sangue azul para a nobreza fisiológica do corpo. Ou Gorgonzola, o queijo azul, substituído pelo Stilton Azul inglês com amoras, para um comer azul.
Ou Sinatra como o "Old Blue Eyes", os "Blue Suede Shoes" de Elvis Presley, O "Danúbio Azul" de Strauss, a nota azul, o triste azul, o "Barba Azul" de Bella Bartók. Os azuis e os pauis, uma memória azul, o "tudo azul, completamente blue", de Cazuza para cantar e dançar(3) . Um peixe azul em exílio nas águas de Zurique. As fichas azuis no cassino de San Remo. O brilho do gelo azul para os diamantes da África do Sul. Um rumor azul, o azul absurdo de um nu. Um lápis azul para resumir a dor. As garatujas da esferográfica azul de Derek Jarman, Jan Fabre e Amish Kapoor. Para uma arte azul. No cinema, a "Imensidão Azul" e "A Lagoa Azul".
Uma gorjeta azulada, a nota de 10 florins com a efígie de Frans Hals em azul. Por que os italianos colocam grandes pintores em notas grandes e os holandeses põem grandes pintores em notas pequenas?
E inumeráveis clichês e provérbios - Faça um rio azul ascender pela coluna e alcançar o lótus das mil pétalas. Um vento azul não sopra nada além do azar. A ágil raposa azul salta sobre o preguiçoso cão azul. Quem vive em uma casa azul não deveria azucrinar o vizinho. Ficar azul de ódio. O "tudo azul", o zum-zum da abelha de Azure. Zoom. Harry Bloom, Bloomingdales, o manto azul do gato persa, o azul-calcinha, o azul-fantasma, o quarto azul, o trem azul, azulejos. Fui vencido(4).
Azul
Ai! (uma expressão muito azul) - parece que o azul tomou conta de tudo. Já não posso seguir no meu antagonismo à cor. Tanto mais que Giovanni Bogani encontrou, em seu romance Blu, ainda muito mais azul.
(1) Este texto é o prefácio que Peter Greenaway escreveu para o romance "Blu", do escritor italiano Giovanni Bogani.
(2) Ives Klein, artista plástico francês (1928-1964), que fez vários trabalhos monocromático em cor azul.
(3) Versão livre de: 'Blue moon, I saw you standing alone', for singing and dancing".
(4) Este parágrafo foi totalmente "transcriado" a partir de expressões brasileiras e provérbios orientais.
*
Tradução: Maria Esther Maciel
ZUNÁI - Revista de poesia & debates
Foto: Selénia Granja
Foto: Selénia GranjaZUNÁI - Revista de poesia & debates
►O CINEMA É UMA ARTE A SER INVENTADA
(textos e imagens de Peter Greenaway)

Vermelho é uma cor musical, obsessão erótica ou paisagem de pianos apodrecidos. Seios e esfinges, colunas e arqueiros, noivas e navios são imagens, formas, cores e volumes que surgem na tela, num jogo de combinações pictóricas. Figuras: que se movimentam nos quatro cantos do tabuleiro, elefante persegue rainha, bispo encurrala o rei. Após cem anos de "texto ilustrado", de literatura adaptada a outra mídia, seguindo os modelos narrativos do romance do século XIX, Peter Greenaway redescobriu o universo das imagens sonoras em movimento: uma arte do imprevisto, do inusitado, do bizarro, como os ideogramas de um poema japonês grafados na pele viva. Nesta edição de Zunái, apresentamos um caderno especialmente dedicado ao cineasta inglês, autor de obras como A Última Tempestade, O Livro de Cabeceira e Oito Mulheres e Meia, com uma pequena seleção de seus textos e um link com imagens de seus filmes. Este caderno foi preparado com a colaboração de Maria Esther Maciel, organizadora do livro O Cinema Enciclopédico de Peter Greenaway e uma das principais estudiosas do diretor britânico.
*
26 APONTAMENTOS SOBRE A PELE E A TINTA
*
►- O Livro de Cabeceira, de A a Z

Peter Greenaway
►Introdução
Li pela primeira vez O Livro de Cabeceira de Sei Shonagon em 1972, em uma tradução para o inglês de Arthur Waley. Dentre suas inúmeras qualidades, a obsessão pelas listas aparentemente arbitrárias foi o que primeiro me seduziu. Li uma versão inglesa mais completa do livro em 1984, ao mesmo tempo em que preparava uma lista alfabética bem mais ortodoxa para o filme Um z e dois zeros. Imaginei, então, que um dia pudesse ser possível inserir os excêntricos deleites taxonômicos de Sei Shonagon em um filme e dispor as idéias na ordem do que eu considerava um projeto de cinema a ser organizado segundo as 26 letras do alfabeto, sob o nome 26 FATOS SOBRE A PELE E A TINTA.
Devo dizer àqueles que não leram Sei Shonagon que ela certamente não teria se reconhecido na narrativa ou nos personagens desse projeto de filme, embora eu tivesse esperança de que ela pudesse nele reconhecer muitos dos sentimentos que expressou e muito de sua própria excitação em relação à literatura e às coisas do mundo. Eu gostaria também de pensar que ela teria se reconhecido nas citações que fizemos de seu texto.
Muitos aspectos deste roteiro de 1984 mudaram ao longo da jornada que fizemos até que o filme de 1996 se completasse. Entretanto, todos os elementos essenciais da primeira sinopse foram mantidos e, tal como um prefácio ao roteiro definitivo de O Livro de Cabeceira, imagino que ela possa servir como uma introdução pertinente.
____________________
* Este texto, construído em forma de verbetes, é a versão inicial do roteiro do filme O Livro de Cabeceira (1996), de Peter Greenaway. Escrito em 1984, ele foi incluído - a título de prefácio - no livro que traz o roteiro definitivo. Extraído de: GREENAWAY, Peter. The pillow book. Paris: Dis Voir, 1996, p.6-12. Tradução: Maria Esther Maciel.
*
►A
Estamos especulando sobre uma fantasia erótica que combina duas fascinações sem limites: o corpo e a literatura.
►C
Essa Sei Shonagon contemporânea é passional, ao ponto de abandonar tudo pela literatura, pelas palavras, pela escrita, pelos escritores, poetas e homens de letras. Ela mantém um armário em sua casa, um grande armário europeu do século XVIII. Mas dentro não há nenhum papel . Seu corpo é o papel.
►E
►F
A menina adorava ter o rosto pintado, de aniversário a aniversário. Isso lhe trazia o conforto e o amor de sua família - o prazer de viver em uma casa cheia de livros e palavras. Tudo isso se tornou um profundo deleite que ela temia perder. Ela, uma mulher no exílio, vive agora em Hong Kong.
►G
►H
No primeiro terço do filme, aos dois tempos é dado o mesmo espaço, mas gradualmente a história do "agora" torna-se mais e mais intensa, até que o passado passa a ser mostrado em brevíssimos flashbacks.
►I
►J
►K
►L
►M
►N
►O
►P
Nagiko transcreve para o papel os escritos fotografados e os envia anonimamente a um velho editor japonês que vive em Hong Kong e que um dia conheceu seu pai. Ele declara que os escritos não valem o papel em que foram escritos. Nagiko fica ressentida. Ela está determinada a fazer com que o editor veja que ela tem valor como escritora. Ela resolve, então, seduzi-lo. Em vão. Esse editor não se interessa por mulheres. Ele tem um amante, um jovem escritor inglês. A moça, mudando seus planos, decide, cinicamente, seduzir o rapaz inglês.
►Q
►R
►S
►T
►U
►V
►W
Nagiko encontra o corpo do amante. A boca dele está negra de tinta. A combinação de pílulas e tinta o matou. Esta está atordoada. Ela escreve um longo poema erótico sobre o corpo do rapaz, cobrindo cada centímetro de sua pele. Ela providencia um elaborado funeral e forja uma bela nota suicida.
►Y
►Z
O ciumento e apaixonado fotógrafo, o"mata-borrão", engaja-se radicalmente em movimentos políticos extremistas. Ele faz contínuos piquetes diante da livraria do editor, atrapalhando seus negócios. Mas o ânimo se foi para o resignado editor. Ele vive para qualquer coisa que Nagiko lhe envie, esperando pacientemente por mais e mais textos. Ele esvazia sua livraria e demite os funcionários. Podemos vê-lo, vestido com elegantes roupas japonesas, sentado com as pernas cruzadas à meia-luz, ou deitado com os olhos arregalados em direção à porta da livraria e a cabeça encostada sobre o travesseiro de madeira onde está o seu livro de cabeceira. Ele espera, dia após dia.
Certa noite, um robusto rapaz oriental com um corpo de lutador de Sumô bate à porta da livraria. O velho editor deixa-o entrar. O jovem se despe cerimoniosamente. O editor, à meia-luz, vê, em estado de êxtase, o longo poema escrito no corpo do rapaz. Este, por sua vez, se move pacientemente ao ritmo dos olhos do editor. Virando o corpo, inclinando-se para frente, estirando-se, levantando e descendo os braços, ajuda-o a ler o texto. O velho acompanha a escrita, movendo os lábios à medida que lê uma ameaça de morte que só pode ser para ele mesmo. Ele se dá conta de não haverá mais belos rapazes com requintados textos sobre o corpo.
O editor termina de ler o texto e, silenciosamente, retira da gaveta de seu travesseiro de madeira o livro do amante de Nagiko. Com reverência, vira as páginas, beijando cada uma, e o entrega ao rapaz. Então o editor dá um sinal com a cabeça e o jovem corta-lhe a garganta.
*
ZUNÁI - Revista de poesia & debates
►OS FANTÁSTICOS LIVROS DE PRÓSPERO*
Peter Greenaway
Os roteiros que o cineasta britânico Peter Greenaway escreve para seus filmes quase sempre incluem textos narrativos ou poéticos que desviam o leitor para um topos que escapa às demarcações do gênero e se abre para o campo da criação literária. Roteiros como, por exemplo, os de seus primeiros curtas ou o do longa-metragem The Falls, de 1980, chegam a ser inteiramente narrativos, configurando-se quase como novelas ou coleções de contos, que longe de apenas traçar textualmente as diretrizes para a realização dos filmes, assumem sua própria autonomia enquanto texto.
O livro que se apresenta com roteiro do filme Prospero´s Books (A última tempestade) é um compósito de diferentes modalidades textuais. Além de um ensaio do cineasta sobre o processo de criação do filme, pequenas narrativas ficcionais construídas a partir de alguns motivos shakespeareanos extraídos da peça A Tempestade, na qual o filme é baseado, vêm compor o conjunto, ao lado de reproduções do próprio texto de Shakespeare e da presença de várias imagens extraídas do repertório canônico da história da arte ocidental
Dentre os textos literários que integram o volume, destaca-se a descrição que o cineasta faz dos 24 livros fantásticos que Próspero, o desterrado Duque de Milão, teria levado para o exílio, ao ser forçado a deixar seu ducado e partir pelo mar com a filha Miranda. Tais livros, de inegável feição borgiana, teriam ajudado o personagem a enfrentar o naufrágio, encontrar e colonizar a ilha onde passa a viver, povoá-la com espíritos e espelhos, educar a filha Miranda e escrever a própria história da qual é personagem.
É a descrição desses livros de Próspero/Greenaway que se segue, em tradução.
Estes são os vinte e quatro livros que Gonzalo apressadamente lançou dentro da nau de Próspero, quando este foi arrastado ao mar para começar seu exílio. Tais livros possibilitaram que Próspero encontrasse seu caminho através dos oceanos, combatesse a perversidade de Sycorax, colonizasse a ilha, libertasse Ariel, educasse e distraísse Miranda, convocasse tempestades e domasse seus inimigos.
ZUNÁI - Revista de poesia & debates
* Fragmento do roteiro de Prospero's books, publicado originalmente no livro: GREENAWAY, Peter. Prospero's books - a film of Shakespeare's The Tempest. London: Chatto & Windus, 1991, p. 17-25.
►1. O Livro da Água
Este é um livro de capa impermeável, que perdeu sua cor pelo demasiado contato com a água. É repleto de desenhos investigativos e textos exploratórios escritos em diferentes espessuras de papel. Há desenhos de todas as associações aquáticas concebíveis: mares, tempestades, chuvas, neve, nuvens, lagos, cachoeiras, córregos, canais, moinhos d'água, naufrágios, enchentes e lágrimas. À medida que as páginas são viradas, os elementos aquáticos se animam continuamente. Há ondas turbulentas e tempestades oblíquas. Rios e cataratas fluem e borbulham. Planos de maquinaria hidráulica e mapas meteorológicos tremulam com setas, símbolos e diagramas agitados. Os desenhos são todos feitos à mão. Talvez seja essa a coleção perdida de desenhos de Da Vinci, encadernada em livro pelo Rei da França em Amboise e comprada pelos duques milaneses para dar a Próspero como presente de casamento.
►2. Um Livro de Espelhos
Encadernado em tecido de ouro e bastante pesado, este livro tem umas oitenta páginas espelhadas e brilhantes: algumas foscas, outras translúcidas, algumas manufaturadas com papéis prateados, outras revestidas de tinta ou cobertas por um filme de mercúrio que pode rolar para fora da página se não for tratado com cautela. Alguns espelhos simplesmente refletem o leitor, alguns refletem o leitor tal como ele era há três minutos, alguns refletem o leitor tal como ele será em um ano, como seria se fosse uma criança, uma mulher, um monstro, uma idéia, um texto ou um anjo. Um espelho mente constantemente; outro espelho vê o mundo de frente para trás; outro, de cima para baixo. Um espelho retém seus reflexos como se fossem momentos congelados infinitamente relembrados. Outro simplesmente reflete um outro espelho através da página. Há dez espelhos cujos propósitos Próspero ainda precisa definir.
Este é um livro grande. Em algumas ocasiões, Próspero o descreveu como tendo quatro metros de largura e três metros de altura. É encadernado em um pano amarelo brilhante que, quando polido, reluz como latão. Trata-se de um compêndio, em texto e ilustração, de mitologias com todas suas variantes e versões alternativas; ciclo após ciclo de estórias entrecruzadas, que tratam de deuses e homens de todo o mundo conhecido - do Norte gelado aos desertos da África -, com leituras explicativas e interpretações simbólicas. De reconhecida autoridade, suas informações são as mais ricas que há no Leste Mediterrâneo, na Grécia e na Itália, em Israel, em Atenas e Roma, Belém e Jerusalém, onde são suplementadas com genealogias naturais e não-naturais. Para o olhar moderno, o livro é uma combinação das Metamorfoses de Ovídio, O ramo de ouro de Frazer e O livro dos mártires de Foxe. Cada estória ou anedota tem uma ilustração. Usando esse livro como um glossário, Próspero pode reunir, se assim desejar, todos os deuses e homens que alcançaram fama ou infâmia através da água ou através do fogo, através do engano, em associação com cavalos ou árvores ou porcos ou cisnes ou espelhos, orgulho, inveja ou gafanhotos.
►4. Uma Cartilha das Pequenas Estrelas
Este é um guia de navegação pequeno, escuro e com capa de couro. É um livro repleto de mapas dos céus da noite, os quais, ao se desdobrarem, caem para fora da página, desmentindo o tamanho modesto do livro. Por retratar a imagem do céu refletida nos mares do mundo quando estes repousam, está cheio de manchas que indicam onde as massas de terra do globo interromperam o espelho oceânico. Isso, para Próspero, foi de grande utilidade, pois dirigindo sua nau avariada para uma dessas pequenas falhas no mar de estrelas, ele encontrou sua ilha. Quando abertas, as páginas da cartilha cintilam com planetas viajantes, meteoros lampejantes e cometas giratórios. Os céus negros pulsam com números vermelhos. Novas constelações se enfeixam repetidamente através de ágeis linhas pontilhadas.
Revestido de uma capa de lata verde-laqueada, com superfície gasta e queimada, este atlas é dividido em duas seções. A primeira é repleta de grandes mapas de viagem e manuais de música do mundo clássico. A segunda, de mapas do inferno. O livro foi usado quando Orfeu viajou ao mundo subterrâneo em busca de Eurídice. Daí que os mapas se encontrem chamuscados e tostados pelo fogo do inferno e marcados pelas mordidas de Cérbero. Quando o atlas é aberto, os mapas borbulham em piche. Avalanches de cascalhos frouxos e de areia fundida caem de suas páginas e crestam o chão da biblioteca.
É um livro volumoso, de cor marrom, encapado em couro e gravado com números dourados. Quando aberto, complexos diagramas geométricos em três dimensões saltam das páginas, como em um livro pop-up. As páginas piscam com figuras e números logarítmicos. Os ângulos são medidos por finíssimos pêndulos de metal que balançam livremente, ativados por ímãs ocultos no papel espesso.
►7. O Livro das Cores
É um livro grande, encadernado em seda carmesim. É mais largo que alto e, quando aberto, as páginas duplas se estendem, formando um quadrado. Trezentas páginas cobrem o espectro de cores com matizadas sombras que se movem do negro de volta ao negro. Quando aberto em sua dupla extensão, a cor evoca tão fortemente um lugar, um objeto, uma posição ou uma situação, que a sensação sensorial correspondente é experimentada de forma direta. Assim, uma reluzente laranja amarela é a entrada para um vulcão e um verde-azul escuro é a lembrança de um mar profundo onde peixes e enguias nadam e espirram água na face do leitor.
Versalius produziu o primeiro livro autorizado de anatomia, que é surpreendente em seus detalhes e macabro em sua singularidade. Este Anatomia do Nascimento - um segundo volume, hoje desaparecido - é ainda mais perturbador e herético. Concentra-se nos mistérios do nascimento. É cheio de desenhos descritivos dos trabalhos do corpo humano, os quais se movimentam, pulsam e sangram quando as páginas se abrem. É um livro proibido, que questiona os processos desnecessários de envelhecimento, deplora os desgastes associados à procriação, condena as dores e os desconfortos do parto, além de questionar, em termos gerais, a eficiência de Deus.
►9. Um Inventário Alfabético dos Mortos
É um volume funéreo, longo e delgado, encadernado em lâminas de prata. Contém todos os nomes dos mortos que viveram na terra. O primeiro nome é de Adão e o último de Susana, mulher de Próspero. Os nomes são escritos em diversas tintas e caligrafias, estando dispostos em longas colunas que ora refletem o alfabeto, ora a cronologia histórica. No entanto, as taxonomias utilizadas são, freqüentemente, de decifração tão complicada, que você poderá pesquisar anos e anos à procura de um nome que, com certeza, estará lá. As páginas do livro são muito antigas e trazem, em marcas d´água, uma série de desenhos de tumbas e columbários, lápides elaboradas, sepulturas, sarcófagos e outras loucuras arquiteturais para os mortos, sugerindo que o livro servia a outros propósitos, mesmo antes da morte de Adão.
Este é um livro que está muito danificado, como se usado em demasia por crianças que o estimaram. A capa de couro carmesim, arranhada e corroída, que um dia fora incrustada com um desenho figurativo de ouro, está agora tão surrada que suas configurações tornaram-se ambíguas, provocando muita especulação. O livro contém aqueles prodígios inacreditáveis que os viajantes contam. "Homens cujas cabeças saem dos peitos", "mulheres barbadas, chuvas de sapos, cidades de gelo roxo, camelos que cantam, gêmeos siameses", "alpinistas gotejantes de orvalho, como touros". É cheio de ilustrações e tem pouco texto.
Um livro volumoso coberto por uma membrana de cor cáqui. Suas páginas são impregnadas de minerais, ácidos, alcalinos, substâncias, gomas, venenos, bálsamos e afrodisíacos da terra. Risque uma grossa página escarlate com a unha de seu polegar para incitar fogo. Passe a língua no cinza de uma outra página para trazer a morte por envenenamento. Ponha a página seguinte de molho na água para curar o antraz. Mergulhe uma outra em leite para fazer sabão. Esfregue duas páginas ilustradas uma na outra para fazer ácido. Encoste sua cabeça em outra página para mudar a cor de seu cabelo. Com este livro, Próspero saboreou a geologia da ilha. Com sua ajuda, dela extraiu sal e carvão, água e mercúrio, e também ouro, não para sua bolsa, mas para sua artrite.
Quando as páginas são abertas neste livro, planos e diagramas saltam completamente formados. Há modelos definitivos de prédios constantemente escurecidos por uma nuvem de sombras móveis. Praças de mercado se enchem e se esvaziam de multidões ruidosas, luzes piscam na paisagem noturna da cidade, ouve-se música nos salões e nas torres. Com este livro, Próspero reconstruiu a ilha, convertendo-a em um palácio cheio de bibliotecas que recapitulam todas as idéias arquitetônicas da Renascença.
►13. As Noventa e Duas Concepções do Minotauro
O livro reflete sobre a experiência do Minotauro, a mais célebre estirpe da bestialidade. Ele traz uma impecável mitologia clássica para explicar procedências e "pedigrees" que incluem Leda, Europa, Dédadus, Teseu e Ariadne. Caliban, que assim como os centauros, as sereias, as harpias, a esfinge, os vampiros e os lobisomens, é um filho da bestialidade, teria grande interesse nesse livro. Zombando d'As Metamorfoses de Ovídio, ele conta a estória de noventa e dois híbridos. Na verdade, deveriam ter sido contadas cem, mas o puritano Teseu, que já tinha ouvido o bastante, aniquilou o Minotauro antes que este tivesse terminado. Quando aberto, o livro exala um vapor amarelo e cobre os dedos do leitor com um óleo negro.
►14. O Livro das Línguas
Este é um livro grande e alentado, com uma capa verde azulada que se turva como um arco-íris sob a luz. Mais uma caixa que um livro, abre-se de maneira não-ortodoxa, por ter uma porta na capa. Dentro, encontra-se uma coleção de oito livros menores, dispostos como garrafas em uma maleta médica. Por trás desses oito livros há outros oito, e assim por diante. Abrir os livros menores é liberar muitas línguas. Palavras e sentenças, parágrafos e capítulos se juntam como girinos de um lago em abril ou pássaros nos céus noturnos de novembro.
15. Plantas Plenas
Parecido com um tronco de madeira antiga e curada, este é um herbário que põe fim a todos os herbários, tratando das mais veneráveis plantas que governam a vida e a morte. É um tijolo de livro, com uma capa de madeira envernizada que já foi, e provavelmente ainda é, habitada por minúsculos insetos subterrâneos. As páginas são recheadas de plantas e flores prensadas, corais e algas marinhas, sendo que em torno do livro pairam borboletas exóticas, libélulas, mariposas esvoaçantes, besouros reluzentes e uma nuvem de pólen dourado. É, simultaneamente, um favo de mel, uma colméia, um jardim e uma arca de insetos. É uma enciclopédia de pólen, perfumes e feromônio.
►16. Um Livro do Amor
Este é um volume pequeno, fino e aromático, encadernado em ouro e vermelho, com laços de fita escarlate para marcar as páginas. No livro vê-se a imagem de um homem e uma mulher nus, bem como a imagem de um par de mãos entrelaçadas. Essas coisas foram, certa vez, vislumbradas brevemente em um espelho, e esse espelho estava em um outro livro. O resto é conjetura.
É um livro grande, um dicionário de animais reais, imaginários e apócrifos. Com esse livro, Próspero é capaz de reconhecer onças e sagüis, morcegos-das-frutas, manticoras e dromecélios, o cameleopardo, a quimera e o catoblepas.
Este é um livro das sociedades ideais. Encadernado em capa de couro dourado e contracapa de ardósia negra, contém quinhentas páginas, seiscentos e sessenta e seis verbetes indexados e um prefácio de Sir Thomas Moore. O primeiro verbete é uma descrição convencional do Céu, e o último, uma descrição do Inferno. Haverá sempre alguém na Terra cuja utopia ideal será o Inferno. Nas páginas restantes do livro, toda comunidade política e social conhecida e imaginada é descrita e avaliada, e vinte e cinco páginas são dedicadas a tabelas nas quais as características de todas as sociedades podem ser discriminadas, permitindo ao leitor selecionar e combinar aquelas que formem sua utopia ideal.
Repleto de diagramas impressos, de grande complexidade, este livro é uma tentativa de colocar todos os fenômenos universais em um mesmo sistema. Os diagramas são gravados nas páginas: figuras geométricas ordenadas, anéis concêntricos que rodam e contra-rodam, tabelas e listas organizadas em espirais, catálogos dispostos em um corpo humano simplificado que, ao se mover, coloca as listas em nova ordem, movimentando os diagramas do sistema solar. O livro oferece uma mistura do metafórico com o científico e é dominado por um grande diagrama que mostra a União do Homem e da Mulher - Adão e Eva - em um universo bem estruturado, no qual todas as coisas têm seu lugar demarcado e a obrigação de serem profícuas.
Um manual de antiquário, um inventário do mundo antigo para os humanistas da Renascença interessados em antigüidades. É repleto de mapas e planos dos lugares arqueológicos do mundo, como templos, cidades e portos, cemitérios e estradas antigas, contendo também as medidas de cem mil estátuas de Hermes, Vênus e Hércules, descrições de cada obelisco e pedestal do Mediterrâneo conhecido, planos das ruas de Tebas, Óstia e Atlântida, um diretório dos pertences de Sejanus, as lousas de Heráclito e as assinaturas de Pitágoras. É um volume essencial para o historiador melancólico que sabe que nada perdura. Suas proporções são como as de um bloco de pedra, quarenta por trinta e por vinte centímetros. A cor é de mármore azul estriado. Arenoso ao toque, tem páginas rijas e crespas, impressas em fontes clássicas que não possuem o W nem o J.
Uma pornografia. É um volume enegrecido e manuseado, cujas ilustrações são levemente ambíguas em relação ao conteúdo. O livro é encadernado em couro curtido de cor negra e tem capas de chumbo danificadas. As páginas são cinza-azuladas e salpicadas de um pó verde lodoso, fios de cabelo crespo, manchas de sangue e outras substâncias. Uma ligeira nesga de vapor ou fumaça levanta-se das páginas quando o livro é aberto, sendo que este se mantém aquecido - como se contivesse o exíguo calor que aparentemente envolve o gesso que seca ou as pedras lisas depois que o sol se põe. As páginas deixam manchas ácidas nos dedos de quem as manuseia e é aconselhável usar luvas para ler o volume.
Este é um livro que, em um nível mais elementar, descreve como os pássaros voam, as ondas encrespam, as nuvens se formam e as maçãs caem das árvores. Descreve ainda como o olho muda de forma quando olha a longa distância, como os pêlos crescem em uma barba, como o riso transfigura um rosto e por que o coração bate e os pulmões inflam involuntariamente. Em um nível mais complexo, ele descreve como as idéias perseguem umas as outras na memória e para onde vai o pensamento depois que o pensamos. O livro é coberto por um resistente couro de cor azul e, por estar sempre se abrindo subitamente por sua própria vontade, encontra-se envolvido por duas tiras de couro, atadas com força na espinha dorsal. À noite, o livro se debate contra a estante e tem de ser contido por um peso de metal. Uma de suas seções se intitula "A Dança da Natureza", na qual podem ser encontradas todas as possibilidades de dança para o corpo humano, codificadas e explicadas em desenhos animados.
Este é um livro de tabuleiros de jogos com infinitas possibilidades de uso. O xadrez é um dentre os milhares de jogos do volume, ocupando apenas duas páginas, a 112 e a 113. O livro contém tabuleiros para serem jogados com fichas e dados, cartelas, bandeiras e pirâmides em miniatura, pequenas reproduções de deuses do Olimpo, ventos em vidros coloridos, profetas do Antigo Testamento feitos de osso, bustos romanos, os oceanos do mundo, animais exóticos, peças de coral, cupidos de ouro, moedas de prata e pedaços de fígado. Os tabuleiros de jogos representados no livro abarcam tantas situações quantas experiências houver. Há jogos de morte, de ressurreição, amor, paz, fome, crueldade sexual, astronomia, da cabala, de estratégias, das estrelas, de destruição, do futuro, de fenomenologia, mágica, retribuição, semântica, evolução. Há tabuleiros com triângulos vermelhos e negros, diamantes cinzas e azuis, páginas de texto, diagramas do cérebro, tapetes persas, tabuleiros em forma de constelações, animais, mapas, viagens ao Céu e viagens ao Inferno.
É um grosso volume impresso de peças teatrais datadas de 1623. Todas as trinta seis peças estão lá, menos uma: a primeira. Dezenove páginas foram deixadas em branco para a sua inclusão. Ela é chamada "A Tempestade". O fólio é modestamente encadernado em linho verde-escuro, com uma capa de papelão onde se destacam as iniciais do autor, gravadas em ouro: W.S.
Tradução: Maria Esther Maciel
ZUNÁI - Revista de poesia & debates
►JANELAS*
Peter Greenaway
Em 1973, na paróquia de W., 37 pessoas morreram por terem caído de janelas. Das 37 pessoas que caíram, 7 eram crianças menores de 11 anos, 11 eram adolescentes menores de 18 anos e os demais eram adultos, todos abaixo de 71 anos, salvo um homem que muitos supunham ter 103.
Cinco das 7 crianças caíram de janelas de quartos, assim como 4 dos 11 adolescentes e 3 dos 19 adultos. Quanto às 7 crianças que caíram, todos os casos foram por acidente, exceto um, por infanticídio.
Dos 11 adolescentes, 3 cometeram suicídio por motivos amorosos, 2 caíram por acidente, 2 estavam bêbados, 1 foi empurrado, 1 foi considerado insano, 1 pulou por aposta e 1 estava testando um pára-quedas.
Dos 18 homens, 2 pularam de propósito, 4 foram empurrados, 5 caíram por acidente e 1, que estava sob a influência de uma droga desconhecida, achou que podia voar.
Dos 11 adolescentes que caíram, 2 eram balconistas, 2 eram desempregados, 1 era casado, 1 era limpador de janelas e 5 eram estudantes de aeronáutica, dentre os quais 1 tocava harpa.
Entre os 19 adultos que caíram, estavam 1 aeromoça, 2 políticos, 1 ornitologista, 1 vidraceiro e 1 costureira.
Dos 37, 19 caíram durante o verão, antes do meio-dia; 8 caíram à tarde, também no verão, e 3 caíram na neve. O ornitologista, o adolescente que testava o pára-quedas e o homem que achou que podia voar caíram ou foram empurrados em noites de primavera. No pôr-do-sol do dia 14 de abril de 1973, a costureira e o estudante de aeronáutica que tocava harpa saltaram da janela para uma ameixeira.
*
Tradução: Maria Esther Maciel
* Roteiro do curta-metragem Windows, de 1975
ZUNÁI - Revista de poesia & debates
*
►A Clausura dos Animais Obscenos (*)
Nos anos formativos da Zoologia, quando os vitorianos entusiasmados varriam o mundo em busca de mais animais, e mais, para sustentar suas teorias e encher seus zoológicos, um número considerável de espécies, das quais agora nada sabemos, foi descoberto. Os animais em questão parecem ter vindo de várias ordens diferentes e de habitats amplamente diversificados. Os registros sugerem que alguns eram grandes e perigosos, mas que a maioria eram anfíbios da África Central, nenhum deles maior que o Sapinho Comum da Europa.
Uma interpretação perfeitamente razoável da evidência poderia sugerir que os moderadamente pequenos Anfíbios Africanos aparecem em maioria só porque estavam mais bem documentados, tendo a informação sobre outros animais, maiores e mais perigosos, sido suprimida porque eles eram considerados os mais ofensivos. E ofensivo é a palavra correta neste contexto porque os vitorianos os consideravam obscenos.
Nos primeiros meses de 1863, Samuel Baker, subindo o Nilo para um encontro com Burton e Grant em Gondokoro, foi obrigado a passar pelo Sudd, o pântano de papiro que na estação das chuvas podia cobrir uma área do tamanho da Inglaterra. A caminho do extremo sul do Lago No ele encontrou, entre fauna cada vez mais estranha, uma série de répteis e anfíbios tão interessantes que deu-se ao trabalho de remetê-los a Londres. Do número original de animais enviados, ao menos sete espécimes chegaram vivos à Sociedade de História Natural, entre eles uma espécie de sapo vivíparo, uma salamandra que sempre fingia estar morta e dois outros animais cuja conexão com os anfíbios conhecidos então era tênue, mas que podiam ser algum tipo aquático de caudata. Baker mandou outros exemplos dos mesmos animais, e de outros igualmente assombrosos que abatera e conservara em sal, para a Fundação Real de Taxidermia em Parliament Hill Fields.
Os espécimes vivos, parece que sobreviveram vários anos sob os cuidados do zoológico de Regent's Park, onde foram abrigados numa área especialmente fechada que logo passaria a ser chamada de clausura dos animais obscenos. Só as pessoas com real e comprovado interesse nos fenômenos zoológicos tinham ali livre acesso, embora se permitissem a certos clérigos da Igreja da Inglaterra, certos escritores e pelo menos um pintor-gravurista acostumado a trabalhar para a Sociedade de História Natural, visitas ocasionais. Não era permitido desenhar ou tomar notas no local e, desde então, apenas dois relatos, obviamente escritos pós-evento e desaparecidos da maneira característica dos documentos relacionados a este caso, , teriam sobrevivido. Sabe-se que um, manuscrito, esteve uns tempos no Museu Britânico; outro é mencionado em inventário de documentos em poder de Darwin no ano de 1889.
É para os espécimes mortos deixados na Fundação de Taxidermia que temos evidência um pouco mais substancial. Um aprendiz ou estudante empregado pela Fundação desenhou os espécimes nas jarras de preservação antes de sua remoção. Não se sabe se o estudante foi incumbido de desenhá-los ou se o fez subrepticiamente, em beneficio próprio. O Curador da Fundação, em carta à Sociedade de História Natural, sugeriu a última dessas duas possibilidades e tachou de incompetentes, distorções sensacionalistas, inadmissíveis dentro das regras legais, os desenhos; quanto ao estudante, ou aprendiz, já que a correspondência não esclarece sua condição, tinha sido expulso e consideravam mover um processo contra ele.
Descobriu-se muito mais tarde ser duvidoso o Curador ter visto tais animais. Poucos poderiam, pois os espécimes começaram a deteriorar assim que desembarcaram na Inglaterra - ninguém sabe se foi acidente, má preparação inicial ou sabotagem. É possível que a relutância de todos em ter algo a ver com eles tenha enfim permitido que se decompusessem ao sabor de seu próprio e delicado ritmo. Os espécimes que alcançaram qualquer sobrevivência além de umas semanas depois da data da carta do Curador seriam em breve destruídos oficialmente, mas, de novo, há evidência de um inventário completo não ter sido feito, e alguns deles parece que escaparam de ser queimados no incinerador da Fundação.
Um amigo e agente de Samuel Baker em Londres tentou melhorar a situação do aprendiz-estudante, sugerindo que as ditas distorções sensacionais vinham das condições apinhadas dos recipientes com álcool, e da preparação imperfeita dos espécimes. Seja como for, os desenhos não foram prontamente destruídos e, de acordo com o agente de Baker, foi feita ao menos uma cópia deles. Nem original nem cópia foram exibidos em público desde 1893, embora haja evidência de que a cópia, ou pelo menos uma cópia, tenha sido vista em New York em particular, quando os papéis de James MacQueen foram leiloados, no ano de 1910. Desde então, vigorou o silêncio.
As notícias de toda essa movimentação e reação profissional só chegaram a Baker bem depois de ele ter feito uma segunda remessa, diferente talvez, desde os pântanos do Rio Kafu a sudoeste de Mrooli. Baker estava aflito para chegar às margens do Luta Nzige, que o mundo iria conhecer como Lago Albert, e vinha enfrentando grandes dificuldades no terreno pantanoso. Sua esposa delirava com insolação, assim como os demais membros do grupo eles andavam meio mortos de fome e sempre encharcados na chuva incessante, mas ele ainda arranjou tempo e energia para capturar e despachar os espécimes. Aí se revela a espantosa e irresistível natureza de seus achados. O que eram exatamente os animais desta vez não se sabe, embora o zoológico tenha acusado o fato de receber 12 anfíbios e cuidadosamente registrado que deveriam ser colocados num dos sete viveiros já então construídos, na clausura dos animais obscenos.
Nessa época, tanto Henry Storey, Professor de Zoologia na Associação Científica de Manchester, como Dr Carey, o especialista em Linnaeus, e Sir Thomas Woolering tinham sido admitidos na clausura. Parece que Carey tinha realmente tentado encaixar as várias espécies nas categorias de anfíbios conhecidas e, incapaz de fazê-lo, achou necessário inventar quatro novas ordens. De brincadeira, o que estaria completamente fora de suas características conhecidas, ou na mais peculiar inocência, o fato é que Carey nomeou duas das espécies em homenagem a Baker e sua jovem esposa húngara, Florence Ninian von Sass. O sapinho Sassiano, descobriu-se, era um anfíbio particularmente estranho cujas preocupações e anatomia sempre atraíram a maior atenção. Seguramente Carey teve oportunidade de dissecar no mínimo um dos espécimes e descrever as certas partes do animal que tinham causado ofensa.
Então Richard Burton se envolveu, mandando três caixas grandes de espécimes animais de Santos, Brasil. Burton subira o Rio São Francisco com uma expedição até as Cachoeiras de Paulo Afonso. Dentro das caixas estavam sete animais e as carcaças de mais dois que tinham morrido na longa travessia do mar. Essas duas carcassas tinham sido salgadas e amarradas em panos encerados, presumivelmente com a ajuda dos transportadores, e podia ser que os marinheiros a bordo tivessem tido conhecimento de sua carga fora do comum. Os animais, até onde é possível conjeturar, eram duma espécie de porco sem pelos, preto e rosa. Mal nutridos e em péssimas condições, os animais foram desencaixotados em Regent´s Park diante de um surpreso grupo visitante de naturalistas. As Autoridades do Zoo mandaram imediatamente confinar os animais na Clausura dos Animais Obscenos, que já obtivera a distinção de ter o nome escrito em letras maiúsculas.
Notícias dos recém-chegados chamaram a atenção de dois jornalistas que haveriam de descobrir a existência da clausura especial e alertar os seus editores. No caloroso debate que se sucedeu, ficou patente que a clausura tinha outros ocupantes. Além dos Anfíbios de Baker e agora os Porcos de Santos, havia outras sete espécies, quatro das quais, ao que tudo indica, fornecidas por Burton de uma expedição Africana mais antiga. Duas eram de macacos, e uma, um mamífero, talvez parente do hipopótamo, em estado crônico de gravidez, e visto como uma anomalia. O resto eram morcegos que Burton descobrira em cavernas numa de suas incursões de Fernando Po oeste d'África adentro.
Certos aspectos da extravagância e da franqueza de Burton já tinham desagradado antes a Sociedade de História Natural , e eles tinham visto suas oferendas zoológicas com ceticismo. Mas não houve quem disputasse a originalidade da última descoberta de Burton. Com a evidência de sete espécimes vivos diante dos olhos, era difícil dizer que os animais eram aberrações como no caso do pseudo-hipopótamo.
É triste constatar que devido à controvérsia que os donativos de Burton causaram nas Sociedades Zoológica e de História Natural, uma caixa de curiosidades animais enviada mais tarde de Dahomey tenha sido ignorada deliberadamente por um curador hiper-sensível da Sociedade de História Natural, até que o fedor das carcaças dentro dela forçou-o a queimá-la em segredo. Mas não suficientemente em segredo, pois algumas informações se espalharam com rapidez e houve um ruidoso protesto de zoólogos, por sua vez abafado pelas forças da decência que se ergueram energicamente em defesa da ação do curador. Burton descreveu mais tarde os conteúdos da caixa como sendo "um casal de bodes e um urso de divã". O mistério do último nome não foi explicado e a descrição "um casal de bodes" deve significar bem mais do que os previsíveis animais domésticos que ela sugere.
Burton havia descoberto e descrito vividamente toda sorte de criaturas desconhecidas ou das quais ninguém ouvira falar na Europa. É até possível, a julgar pelo que ele anotou num diário de 1868, que tenha visto o Okapi, um animal do qual o mundo não tomou oficialmente conhecimento até 1900. Burton manteve um registro completo de seus achados e das contribuições que fez à Associação de História Natural e, desde que soube de sua existência, à Clausura dos Animais Obscenos. Como tantos outros, porém, seus documentos e diários desapareceram no incêndio dos papéis tão habilmente organizados por sua viúva. Apenas 18 páginas, o registro de algumas poucas semanas passadas na América, sobreviveram de um diário que ele manteve escrupulosamente por 40 anos.
Pouco depois da chegada dos porcos de Burton, um certo Major-Coronel Capelstan, vindo de Tripoli em férias, visitava o Zoológico de Regent´s Park com uma dama quando, acidentalmente ou não, encontrou um caminho desobstruído para a Clausura dos Animais Obscenos. Dizem alguns que a Dama esperou do lado de fora, outros que ela entrou com seu acompanhante e saiu carregada em uma maca. Um terceiro grupo afirma que ela viu ali muitas coisas que a deliciaram e divertiram.
O Major-Coronel, embora genuinamente surpreso, parece ter ficado tão incerto quanto as pessoas que relataram as reações da dama, sobre como se sentiu diante do incidente. Num momento ele faz coro com os curadores do zoológico e se diz chocado; noutro, concorda com os zoólogos, crendo que os achados são de grande importância zoológica, e também gozou de libidinosa reputação entre seus colegas oficiais enquanto fonte de hilariante informação. Quaisquer que fossem suas reações pessoais, poucos dias depois de sua visita à clausura, um número considerável de pessoas, de outra maneira desinteressadas em zoologia, começaram a visitar o zoológico na esperança de inspecionar a CAO, a clausura conhecida agora por suas iniciais.
Há evidência de que moradores de Marylebone e Parliament Hill, Camden Town e Kentish Town, achavam que a segurança física, e talvez, principalmente, a segurança moral de suas crianças e criados, corria sério risco caso os animais escapassem. Como resultado deste sentimento público, um magistrado de Marylebone, Thomas Bowen, foi convidado a inspecionar os animais, e conduziu uma entrevista com o Major-Coronel Capelstan. Tudo indica que quando Bowie chegou ao zoológico ele certamente viu os anfíbios, mas pouco mais, se tanto, salvo a carcassa de um dos porcos de Burton. Uma delegação de biólogos pediu a Carey e Sir Thomas Storey que fossem ver Bowen para saber se algo que prejudicasse os seus estudos dos animais estava para acontecer.
Parece ter havido uma tentativa de conciliar todos os movimentos realizados nas semanas seguintes, mas sobreviveram evidências suficientes para sugerir que uma reunião geral teve lugar na Corte dos Magistrados de Marylebone. Suas conclusões permanecem sem registro, mas três semanas depois o Major-Coronel Capelstan deixou a Inglaterra, não para Tripoli como seria de esperar, mas para a África Central, seguindo muito do mesmo caminho que, acreditava-se, Samuel Baker teria tomado. Na expedição de Capelstan estavam três zoologistas, um dos quais era perito em répteis e anfíbios. O próprio Capelstan esteve fora por 13 anos, dois dos zoólogos nunca voltaram e o terceiro, o especialista em répteis e anfíbios, passou o resto de seus dias em Alexandria onde era responsável por um pequeno zoológico. Dizem que Burton, quando era cônsul em Damasco, contribuiu com somas consideráveis para a manutenção do zoológico.
Quando voltou à Inglaterra, Samuel Baker teria ido ao zoo de Regent´s Park para visitar os animais que tinha doado à CAO. Não há registro de seus comentários, mas ele nunca mais teve qualquer coisa a ver com a Sociedade de História Natural. Um ano depois o agente de Baker visitou o zoológico pela mesma razão e contaram-lhe que a Clausura dos Animais Obscenos já não existia e que todos os espécimes haviam morrido. O agente de Baker encontrou Burton em Vichy em 1869, e na presença de Swinburne, disse-lhe que a Sociedade havia declarado que a clausura não existia mais porque os animais originais tinham morrido e tinha sido impossível cruzá-los com sucesso.
Conta-se que Burton e Swinburne caíram na gargalhada, considerando que as características dos bichos pareciam sugerir que eles pouco faziam além de copular. Burton acusou as autoridades do zoológico de isolarem os animais contra a sua natureza, ou ainda de alguma hedionda tentativa de operação física para torná-los aceitáveis. Segundo Victor Maracel, esta observação, ao lado de outros materiais documentados de Burton, é que deu a HG Wells a idéia que emergiria mais tarde em "A Ilha do Doutor Moreau".
Poucos meses depois do agente de Baker ter ouvido sobre o fechamento do Clausura dos Animais Obscenos, Alfred Spachmann sondou Carey sobre uma expedição zoológica que ele planejava fazer na China e, no decorrer da conversação, Carey confidencialmente mencionou que a Sociedade de História Natural estava cuidando de alguns animais no Windsor Great Park. Ele também confirmou que o Major-Coronel Capelstan tinha ido de fato à Africa Central com apoio de fundos coletados pela Sociedade de História Natural.
Até aqui havia realmente poucos fatos que qualquer pessoa ligada com o caso pudesse confirmar ou negar, mas daqui em diante qualquer tentativa de documentação autêntica acaba por completo, e o rumor e a especulação ganham força extraordinária.
Foi sugerido que Sir Thomas Carter Monroe tinha abastecido um zoológico com curiosidades em Baden-Baden com a ajuda de Burton e de doações anônimas desde Alexandria. Escandalosas fortunas teriam sido feitas da exibição e do leasing de certos primatas pelados deste zoológico que também era responsável por suprir com animais circos itinerantes na Hungria e na Crimea. Um cartum no Illustrated London News sugeriu que a perseguição dos ciganos na Polônia foi agravada por freqüentadores de uma feira excitados pelas performances de certas curiosidades animais. Em que sentido eles foram excitados fica deliberadamente sem ser esclarecido.
Os mais fortes e mais persistentes rumores associados com este assunto dizem respeito à morte de John Hanning Speke. Encurralados em ferrenho antagonismo envolvendo suas teorias opostas sobre a localização da fonte do Nilo, Burton e Speke tinham concordado em expor seus argumentos em público num encontro da Associação Britânica para o Progresso da Ciência em Bath. Na tarde antes do encontro, Speke morreu fulminado por um tiro. Certamente auto-inflingido, mas se por acidente ou desígnio, a morte de Speke ainda está aberta a especulações.
Um mês após a morte de Speke, o Morning Advertiser recebeu um artigo escrito, diz-se, por James MacQueen, cuja forma de tratar Speke na Imprensa havia sido até então maliciosa e caluniosa. O Advertiser recusou o artigo mas aparentemente versões dele de algum modo ganharam ampla circulação e estimularam o rumor de que Speke teria descoberto que Burton estava prestes a revelar no encontro de Bath, que ele, Speke, tinha mantido um primata pelado não-identificado à guisa de animal doméstico, que este nunca o abandonava, noite ou dia, quando ele trabalhava na África, e que ambos tinham sido vistos juntos banhando-se em um tanque de águas de chuva na casa da família de Speke em Dowlish Wake em Wiltshire. Sustenta-se que a eloqüente intenção de Burton de publicidade consubstanciando esta revelação tinha sido demais para Speke, e ele atirara em si mesmo de modo fazer sua morte parecer um acidente.
É verdade que as pressões sobre Speke eram muito grandes. Ele tinha feito muitos inimigos, e o encontro em Bath era crucial para a sua credibilidade. Seria assistido por celebridades do mundo científico e biológico incluindo Murchison, o Presidente da Royal Geographical Society, e por ninguém menos que o luminar Livingstone. Burton era um excelente orador e, nas circunstâncias de ignorância geral sobre a África Central, tinha argumentos muito razoáveis para refutar aqueles de Speke. Assim, parece tão desnecessário quanto improvável que Burton se rebaixasse a uma atitude tão vexatória, que com certeza bateria de volta contra sua própria pessoa.
Speke havia sido acompanhado pelo próprio Burton na primeira expedição africana e por Grant na Segunda, e nenhum dos dois mencionou qualquer primata. Talvez MacQueen, ou o rumor que ele aparentemente ajudou a estimular, estivesse fazendo algum comentário complicado sobre Burton ou Grant. Manter um chimpanzé não é razão especial para conduta imprópria, embora possa ter sido um pouco excêntrico em 1869. O previsível efeito do adjetivo "pelado" para descrever o primata, numa audiência ligada em qualquer rumor vindo da África, e possivelmente informada sobre a Clausura dos Animais Obscenos, obviamente abria-se a toda sorte de indefinidas possibilidades.
Uma vez iniciado, contudo, o rumor recusou-se a morrer, especialmente quando foi alimentado com a nova idéia que circulou de que um caixão de cinco pés, portando os restos de um animal, tinha sido enterrado sob o memorial de Speke em Kensington Gardens. Ao lado do memorial se lê a inscrição "Em memória de Speke, Vitória, Nyanza e o Nilo". Especulou-se que Nyanza se referisse não ao nome anterior do Lago Vitória, já que o nome novo estava ali em todo caso, mas ao ocupante do caixão.
Quanto aos outros personagens no drama, o Major-Coronel Capelstan morreu no Oeste da África nalgum lugar da região do Rio Gabão. Burton viajara por lá em 1862, na época em que era Consul em Fernando Po, e foi daquela região que ele enviou a segunda remessa de animais para Londres. Foi sugerido que os habitantes da região celebraram sua morte porque ela trouxe o fim de 12 anos de incêndios periódicos na selva. Os restos mortais de Capelstan foram mandados de volta à Inglaterra num caixão suficientemente largo para conter dois corpos. Isto não era tão incomum. Um caixão grande era considerado uma precaução quando o cadáver podia muito bem inchar com as alterações dramáticas de clima e temperatura a que estaria sujeito na viagem para a Inglaterra. O caixão foi enterrado no pátio da Igreja de Chiswick. Um ano depois, o agente de Samuel Baker foi à Nova Iorque, e, sugeriu-se, aos escritórios do New York Herald, que tinha sido empregador de Stanley, verificar o rumor que ouvira a respeito da relutância de Livingstone em deixar Ujiji. Não se sabe o que o agente de Baker descobriu porque ele morreu ao cair de um barco num nevoeiro e seu corpo nunca foi encontrado.
Quanto aos animais envolvidos, não se encontraram documentos realmente verificáveis sugerindo que eles tivessem sido vistos outra vez. A correspondências da Sociedade de História Natural e da Fundação Real de Taxidermia não faz mais referência a qualquer animal que possa ter estado na Clausura dos Animais Obscenos em Regent´s Park ou alhures. Se Capelstan obteve sucesso em sua missão ao Sul do Sudão, e depois no Oeste da África, não se sabe, se de fato ele foi enviado para lá como exterminador, conforme foi sugerido. O problema de erradicar uma espécie em terra tão inóspita parece ter sido tão impossível então quanto é agora. O extermínio dos morcegos que encontravam-se localizados em alguns poucos sistemas subterrâneos de cavernas na Criméia pode ter sido fruto de persistente determinação.
Relatos ocasionais de anfíbios isolados e não-identificados continuaram a chegar do sul do Sudão ao longo dos últimos anos do século dezenove, e os antropólogos têm enfatizado com freqüência a significância dos artefatos de prodigiosa sexualidade manufaturados por duas tribos a oeste do Rio dos Antílopes, o Bahr-el-Ghazel. Estes entalhes, tiaras e adornos têm sido ardentemente ambicionados mas até agora não foram expostos para o público em geral. Talvez seja também verdade que sua sensualidade excessiva pode ser atribuída a outros causas além de sapos copuladores.
Um zoo em Alexandria, possivelmente uma continuação daquele fundado pelo zoólogo que acompanhou o Major-Coronel Capelstan, ficou conhecido por ter sido mantido pelo Rei Farouk até a época de seu exílio. Supõe-se que tenha sido fortemente guardado e que contivesse um grande viveiro de anfíbios exóticos. Um ou dois dignatários Europeus teriam sido bastante privilegiados e discretos para visitar a coleção mas jamais o admitiram.
Um recente rumor sugeriu que no primeiro rascunho dos "Sete Pilares da Sabedoria", perdido mais tarde dentro de um trem, TE Lawrence teria supostamente tecido longos comentários sobre uma coleção de animais, entre eles diversos sapos, que viu no Cairo. Ele os viu aparentemente na mesma época em que teria tido a experiência da "Estrada para Damasco" que coloriu o restante de sua vida.
*
Tradução: Ethon Amilcar da Fonseca
ZUNÁI - Revista de poesia & debates
►TRÊS CONTOS
Peter Greenaway
►O NATURALISTA
Um naturalista de hábitos muito regulares seguia o sol em torno de sua casa. Logo após a alvorada, ele se sentava para tomar café com a família na varanda voltada para o leste. Às onze lanchava com a família na varanda voltada para o sol do sudeste. Na hora do almoço, comia com sua família no terraço que dava vista para O jardim do lado sul. Por volta de sete horas, o naturalista jantava com sua família no jardim de inverno voltado para o pôr-do-sol e, assim que escurecia, o naturalista ia para a cama.
Quando o mundo se pôs a girar no sentido anti-horário, o naturalista não conseguiu mudar seus hábitos, passava o dia sozinho na sombra de sua casa, e nunca mais se sentou ou comeu com sua família.
►HIDROFÃ
Um rapaz empregado pela Comissão Metropolitana de Água trabalhava oito horas por dia sobre uma escrivaninha feita da madeira de um velho navio. O rapaz passava seu intervalo de almoço em uma piscina e suas pausas para o chá observando um canal. Nas manhãs de sábado ele trabalhava para um peixeiro e nas tardes de sábado ia ao zoológico observar os peixes tropicais nadando nos aquários. Aos domingos ia pescar pela manhã e à tarde lia ou "A Parábola Dos Pães e dos Peixes" ou a "História de Jonas e a Baleia" para uma turma de Escola Dominical. Em noites alternadas de domingo cantava canções de marinheiro em um clube de cadetes ou coletava dinheiro para o Fundo da Bóia Salva-vidas. Seus dias de folga eram usados para cruzar e recruzar o Canal em uma balsa com sua namorada que trabalhava em uma loja de fish-and-chip. Em qualquer outra hora vaga o rapaz simplesmente bebia água.
►O PADRE INSETO
Um teólogo que também era entomologista amador achava que os homens eram lagartas. Os dez mil seguidores do teólogo encasularam-se em papel marché e fita adesiva marrom para aguardar a metamorfose. Os que sobreviveram à desidratação, aos barbeiros, aos ichneumonídeos, aos fungos, à sufocação e aos pássaros foram, ao serem libertar-se, imediatamente espetados na coleção do todo-poderoso.
(Da série One dozen ecomomical stories)
Tradução: Myriam Ávila
ZUNÁI - Revista de poesia & debates
PETER GREENAWAY

A Barriga do Arquiteto

A Última Tempestade

A Última Tempestade

Afogando Em Números


O Ladrão, o Cozinheiro, sua Mulher e o Amante


O Livro de Cabeceira

Oito Mulheres e Meia
*
ZUNÁI - Revista de poesia & debates
Senado aprova com folga entrada da Venezuela no Mercosul Os governistas aprovaram, por 12 votos contra cinco, o ingresso da Venezuela no Mercosul. Com três anos de atraso, prevaleceram os argumentos do forte comércio entre Brasil-Venezuela e da integração sul-americana
►Luciano Siqueira ►CIA compra empresa que monitora blogs, Twitter, YouTube e Amazon
►Lejeune Mirhan►A vietnamização da guerra na Colômbia
►Venicio A. de Lima►Brasil apresentará plano para reduzir queima de biomassa
►Stédile: "Querem desmoralizar quem faz luta social nesse país"
►Justiça colombiana: Pacto militar favorece EUA e ameaça soberania
►AVISO AOS NAVEGANTES
LIBRO DE FLAVIO DALOSTTO 480 PÁG. ESTE VIERNES
A partir do dia 30 de octubre Flavio Dalostto disponibilizara aos leitores um excelente Libro Digital de 480 páginas sobre el Acontecer Latinoamericano, textos de los últimos 2 años.O livro es gratuito y pode ser solicitado al correo que será oportunamente brindado.
O Libro pode ser reproducido digitalmente ou em papel, libremente, para uso personal, para regalar a los Amigos o a los Enemigos, siempre que nao seja com fines lucrativos.
Muchas gracias.
FD.
Visite, leia o Blog do Flavio e baixe o Livro Digital.
aqui em Flavio Dalostto
http://la-opinion-argentina.blogspot.com/
Gratissima.
Este libro está registrado legalmente al solo hecho de permitir su libre copia y difusión por cualquier medio.
Cópiese y difúndase libremente, siempre que no sea con fines de lucro.
Flavio Dalostto
Leer más
Leer más
Este centro contribuirá al desarrollo tecnológico del país
Leer más
Leer más
Proveedores de internet se oponen a ser policías de la red
►Satélite Simón Bolívar arriba a su primer aniversario
►Satélite Simón Bolívar llegará a su primer año de soberanía espacial venezolana
►Bolivia contará con su propio satélite
►Jesse Chacón: Venezuela ha incrementado inversión en ciencia y tecnología
►Inglaterra podría prohibir compartir archivos en internet

►América Latina
Firman la restitucion de Zelaya

►Venezuela
►Conocimiento Libre
►-Linux es el futuro, dice un ex empleado de Microsoft
Franco Catrin
►Intelectuales y artistas del mundo se manifiestan en defensa del Movimiento de los Trabajadores rurales Sin Tierra
►La CIA compra una empresa que monitorea blogs, Twitter, YouTube y Amazon
En una noticia exclusiva publicada esta semana en la revista WIRED, se reveló que In-Q-Tel, una empresa inversionista de la Agencia Central de Inteligencia de Estados Unidos (CIA), acaba de hacer grandes inversiones en un negocio dedicado a monitorear los medios y redes sociales. Esta empresa, Visible Technologies, vigila cada día más de medio millon de sitios en internet, revisando más de un millon de conversaciones, foros y posts en diferentes blogs, foros en línea, Flickr, YouTube, Twitter y Amazon. Los clientes de Visible Technologies reciben información en tiempo real sobre lo que se está diciendo y haciendo en el ciberespacio, basada en una serie de palabras claves.
Según la revista WIRED, esta nueva adquisición de la CIA forma parte de un movimiento mayor dentro de la comunidad de inteligencia para mejorar la capacidad de utilizar “fuentes abiertas de inteligencia” – información que está disponible en el ámbito público, pero muchas veces escondida en programas de televisión, artículos de prensa, blogs, videos en internet y reportajes en miles de emisoras que se generan todos los días.
El vocero de Visible Technologies, Donald Tighe, reveló que la CIA les pidió monitorear a los medios sociales extranjeros e instalar un sistema de “detección temprana” para informar a la agencia de inteligencia sobre “cómo los asuntos de interés se están manifestando a nivel internacional”. Pero también, se utiliza a nivel nacional, dentro de Estados Unidos, para monitorear a los bloggers y tweeters domésticos.
Visible también suministra un servicio similar a empresas de comunicación, como Dell, AT&T, Verizon y Microsoft, para informarles sobre lo que están diciendo en los foros de ciberespacio sobre sus productos.
A finales del año 2008, Visible comenzó una colaboración con la empresa consultora de Washington, Concepts & Strategies (Conceptos y Estrategias), que estaba dedicada a monitorear y traducir medios extranjeros para el Comando Estratégico del Pentágono y el Estado Mayor Conjunto, entre otras agencias estadounidenses. Concepts & Strategies está actualmente reclutando “especialistas en medios sociales” con experiencia en el Departamento de Defensa y fluidéz en árabe, farsi, francés, urdu o ruso. La empresa también está buscando un “ingeniero de seguridad para sistemas informáticas” que ha sido ya otorgado acceso “Top Secret” por la Agencia de Seguridad Nacional (NSA) de Estados Unidos.
La comunidad de inteligencia ha tenido un gran interés durante muchos años en los medios sociales y las redes sociales en internet. In-Q-Tel ha realizado grandes inversiones en Facebook y otras empresas que reúnen datos e información de millones de usuarios por todo el mundo. La Dirección Nacional de Inteligencia (DNI) de Estados Unidos mantiene el Centro de Fuentes Abiertas, que está dedicada a la búsqueda y el monitoreo de información públicamente disponible, pero no siempre encontrada con facilidad.
Hace una semana, el Departamento de Estado patricinó un evento en la Ciudad de México llamado la Cumbre de la Alianza de Movimientos Juveniles, reuniendo jóvenes dirigentes políticos afines a los intereses de Washington con los fundadores y representantes de las nuevas tecnologías como Facebook, Twitter y YouTube. La Alianza buscaba “mejorar la capacidad de los jóvenes políticos para utilizar las nuevas tecnologías para mobilizar sus organizaciones y diseminar información a un público masivo.” Participaron varios dirigentes opositores de Venezuela, como Yon Goicochea y Geraldine Álvarez, conocidos por sus vínculos a las agencias de Washington desde hace unos años. También asistieron, por invitación del Departamento de Estado, los promotores de la marcha “No Más Chávez” que fue convocada en Facebook durante el mes de septiembre 2009.
La unión entre las agencias de Washington, las nuevas tecnologías y los jóvenes dirigentes políticos seleccionados por el Departamento de Estado, era una receta para una nueva estrategia de ''cambiar regímenes''. Además, ese evento reafirmó el apoyo político y financiero al movimiento estudiantil de la oposición en Venezuela por parte de Estados Unidos y colocó ante la opinión pública una evidencia irrefutable de la siniestra alianza entre Washington y las nuevas tecnologías.
Ahora, con la nueva evidencia sobre las últimas inversiones de la CIA que permiten el monitoreo y rastreo de información en Twitter, blogs, YouTube y otros foros en ciberespacio, no hay duda de que el campo de batalla se ha ampliado.
Sin embargo, la comunidad de inteligencia no controla –todavía– todo el contenido y flujo de información en el ámbito cibernético. Y las mismas herramientas que les sirven a ellos para minar data y obtener información sobre sus potenciales adversarios, pueden ser utilizadas por los que luchan contra las intrusiones imperiales como armas para movilizar masas y diseminar verdades sobre sus agresiones.
La CIA nos tiene en la mira, pero nosotros también la estamos vigilando.
Noticias sobre la Alianza de Movimientos Juveniles:
Reportaje de Wired: http://www.wired.com/dangerroom/2009/10/exclusive-us-spies-buy-stake-in-twitter-blog-monitoring-firm/
Compartir esta noticia:

►Segurança Pública
Polícia mata, omite seus mortos e fica impune
Números de mortes de civis provocadas pela polícia não são reais na maioria dos estados brasileiros
-> Impunidade é a marca dos crimes cometidos por autoridades-> Lutas contra a violência policial se intensificam em todo Brasil
►América Latina
Espionagem colombiana complica relações com Venezuela, Equador e Cuba
Plano colombiano inclui ações de espionagem e desestabilização contra outros países da América Latina
►Os LaranjasDeputados que assinaram CPI contra o MST receberam dinheiro da Cutrale
Quatro deputados federais que assinaram a CPMI receberam doações da empresa que monopoliza o mercado de laranja do Brasil e acumula denúncias na Justiça
►Série Conflitos UrbanosEm São Paulo, como pobres e ricos são tratados
Em entrevista, defensor público do núcleo de cidadania e DH analisa a diferença de tratamento dada pelo poder público do estado
-> Especulação empurra os pobres cada vez mais pra lá-> O uso da violência planejada
-> As barricadas que dividem São Paulo
►Trabalho escravo
-> Trabalho escravo é encontrado em obra ligada à usina do Madeira

Fiscalização flagra escravos em escavações para rede da Claro
Grupo foi aliciado no Rio de Janeiro, não recebia salários, estava alojado em galpão e pagava pela comida. Subcontratada pela empresa de telefonia celular não fornecia água potável nem equipamentos de proteção individual ... Leia Mais
Deputados que assinaram CPI contra o MST receberam dinheiro da Cutrale
Quatro deputados federais que assinaram a CPMI receberam doações da empresa que monopoliza o mercado de laranja do Brasil e acumula denúncias na Justiça. ... Leia Mais

Deputado Juthay, na lista da Cutrale

Beto Almeida: A agenda da comunicação sai da penumbra
O tema sempre foi tabu. Tema proibido. Temos uma fileira de vítimas da ditadura midiática, - intelectuais , pensadores, sindicalistas, jornalistas e artistas - por terem defendido que o progresso tecnológico comunicacional deve s... Leia Mais
Lula peita Gilmar sobre MST. Já estava na hora
►RED POR TI AMERICA RECIBE RECONOCIMIENTO
POR PARTE DEL MST DE BRASIL
La RPTA recibió un muy agradecido reconocimiento por parte del MST (MOVIMIENTO DE LOS TRABAJADORES RURALES SIN TIERRA DE BRASIL) por su trabajo en contra de la guerra mediatica y para la comunicacion social antimperialista y anticapitalista.
Aqui estamos, rodilla en tierra, en defensa de los 25 anos de historia del MST y en respaldo de los proximos 25!
Patria libre, Venceremos!
El colectivo de trabajo de la RPTA►EN BUSCA DEL NUEVO PERIODISMO


►Gobierno de Uribe promueve desestabilización y terrorismo paramilitar en Venezuela

grabación: Nelson Biceño

►UNA VENTANA POR Y PARA
EL PUEBLO PERUANO


►PERU: NACIONES ANDINAS Y AMAZONICAS SE PRONUNCIAN
►BASTA !! FUERA GOLPISTAS ASESINOS!!!

►PARA QUE JAMÁS, NUNCA MÁS, UN GOLPE DE ESTADO MILITAR
►MST DE BRASIL: POR LA DEFENSA DEL DERECHO A LA TIERRA !!!
►Projeto ruralista coloca em risco a lei ambiental
"5 mil pés de laranja valem mais que milhares de vidas!"
►MANIFESTO EM DEFESA DA DEMOCRACIA E DO MST
►RADIO EN RED
►Radio Cafe Stereo - La radio
Bolivariana
Patria Nueva (Bolivia)
Telesur
Cubavision
EcuadorTV
VTV Venezuela
"Chove en Santiago"
Federico García Lorca
Chove en Santiago
Meu doce amor
Camelia branca do ar
Brila entebrecida ao sol.
Chove en Santiago
Na noite escura.
Herbas de prata e sono
Cobren a valeira lúa.
Olla a choiva pola rúa
Laio de pedra e cristal.
Olla no vento esvaido
Soma e cinza do teu mar.
Soma e cinza do teu mar
Santiago, lonxe do sol;
Agoa da mañan anterga
Trema no meu corazón.
►Contaminación del Primer Mundo causa El niño

Ciclo del fenómeno El Niño
►aumento de dióxido de carbono
Los países industrializados registraron en 2007 un nuevo aumento en sus emisiones de gases de efecto invernadero por séptimo año consecutivo, reveló hoy un reporte de Naciones Unidas.
Leer más
►Nivel del mar se elevará más de un metro por el calentamiento del Ártico
El calentamiento global ha derretido el hielo en el Ártico, y se espera que para el 2100 suba el nivel del mar. (Foto: El País)
Leer más
►EE UU mantendrá por ahora dominio del Gobierno de Internet
►Finlandia regala el acceso a internet a sus ciudadanos
►Usar internet aumenta la inteligencia
►Altas temperaturas obedece a la proximidad del equinoccio de otoño
►Google es denuciada por copiar libros sin permiso
Leer más
> LEIA MAIS | Meio Ambiente | 27/10/2009
►Coleção destaca grandes cientistas brasileiros
Revista Caros Amigos e Editora Casa Amarela lançam série em 12 fascículos que recupera a biografia de 24 importantes nomes de diversas áreas da ciência nacional. Os 12 fascículos quinzenais, 32 páginas coloridas a cada edição, formam ao final uma obra de referência de 384 páginas. O primeiro volume destaca a vida e a obra de Carlos Chagas, um pioneiro da saúde pública brasileira, e de Johanna Dobereiner, responsável por uma técnica de fixação biológica de nitrogênio, que fez a produção de soja brasileira aumentasse cinco vezes, ainda na década de 1960.
> LEIA MAIS | Arte & Cultura | 26/10/2009
►Blogueiros discutem os rumos da mídia no Brasil
Cinco dos principais nomes da blogosfera independente brasileira estarão em Brasília, entre os dias 26 e 30 de outubro, para discutir com estudantes de comunicação e profissionais da imprensa o papel das novas mídias. Paulo Henrique Amorim, Luís Nassif, Luiz Carlos Azenha, Rodrigo Vianna e Marco Weissheimer foram convidados a falar da internet como alternativa de informação para o público, o novo mundo das redes sociais, a crise da mídia corporativa e o exercício da cidadania online.
> LEIA MAIS | Política | 25/10/2009
A virtude pedagógica da Confecom
Quando o governo Lula finalmente decidiu convocar a Conferência Nacionald e Comunicação, os latifundiários da mídia tentaram sabotá-la. Num gesto desesperado, seis das oito entidades empresariais abandonaram a comissão organizadora do evento. Com isso, demonstraram que não têm qualquer compromisso com a democracia. - 23/10/2009
A disputa pela liberdade de expressão na América Latina
A I Conferência Nacional de Comunicação, agendada para dezembro, certamente terá entre uma de suas principais reivindicações a necessidade de quebra do monopólio da mídia e defesa da liberdade de expressão para todos e todas em nosso país. - 13/10/2009
Terça-feira, Outubro 27, 2009
Teoria e prática do duende
|
"Ay qué terribles cinco de la tarde! Eran las cinco en todos los relojes! Eran las cinco en sombra de la tarde!" (Lorca - Excerto de “La cogida y la muerte”) García Lorca ![]() Desde o ano de 1918, quando ingressei na Casa de Estudantes de Madri, até 1928, quando a abandonei, ao terminar meus estudos de Filosofia e Letras, ouvi naquele refinado salão, para onde acorria a velha aristocracia espanhola com o fim de corrigir sua frivolidade de praia francesa, cerca de mil conferências. No desejo de ar e de sol, me aborreci tanto que, ao sair, me sentia coberto por uma leve cinza, quase a ponto de se transformar em pó-de-mico. Não. Eu não gostaria que entrasse na sala essa terrível mosca do aborrecimento que costura todas as cabeças com um fio tênue de sono e põe nos olhos dos ouvintes pequenos tufos de pontas de alfinete. De um modo simples, com o registro que em minha voz poética não tem luzes de madeiras, nem curvas de cicuta, nem ovelhas que subitamente são facas de ironias, vou procurar dar-lhes uma simples lição sobre o espírito oculto da dolorida Espanha. Quem encontra-se na pele de touro que se estende entre os Júcar, Guadalete, Sil ou Pisuerga (não quero citar as torrentes junto às ondas cor de juba de leão que agitam o Plata), ouve-se dizer com certa freqüência: "Este tem muito duende". Manuel Torres, grande artista do povo andaluz, dizia a alguém que cantava: "Tu tens voz, conheces os estilos, mas jamais triunfarás, porque tu não tens duende". Em toda Andaluzia, rocha de Jaén e búzio de Cádiz, as pessoas falam constantemente do duende e o descobrem naquilo que sai com instinto eficaz. O maravilhoso cantador El Lebrijano, criador da Debla, dizia: "Nos dias em que canto com duende não há quem possa comigo"; a velha bailarina cigana La Malena exclamou um dia, ao ouvir Brailowsky tocar um fragmento de Bach: "Olé! Isso tem duende!", e aborreceu-se com Glück, com Brahms e com Darius Milhaud. E Manuel Torres, o homem com maior cultura no sangue que conheci, disse, escutando o próprio Falla tocar seu Nocturno del Generalife, esta esplêndida frase: "Tudo o que tem sons negros tem duende". E não há nada mais verdadeiro. Esses sons negros são o mistério, as raízes que penetram no limo que todos conhecemos, que todos ignoramos, mas de onde nos chega o que é substancial em arte. Sons negros, disse o homem popular da Espanha, e coincidiu com Goethe, que define o duende ao falar de Paganini, dizendo: "Poder misterioso que todos sentem e nenhum filósofo explica". Assim pois o duende é um poder e não um obrar, é um lutar e não um pensar. Eu ouvi um velho violonista dizer: "O duende não está na garganta; o duende sobe por dentro a partir da planta dos pés". Ou seja, não é uma questão de faculdade, mas de verdadeiro estilo vivo; ou seja, de sangue; ou seja, de velhíssima cultura, de criação em ato. Esse "poder misterioso que todos sentem e nenhum filósofo explica" é, em suma, o espírito da terra, o mesmo duende que abraçou o coração de Nietzsche, que o buscava em suas formas exteriores sobre a ponte Rialto ou na música de Bizet, sem encontrá-lo e sem saber que o duende que perseguia tinha saltado dos misteriosos gregos às bailarinas de Cádiz ou ao dionisíaco grito degolado da seguiriya de Silvério. Assim, pois, não quero que ninguém confunda o duende com o demônio teológico da dúvida, ao qual Lutero, com um sentimento báquico, lançou um frasco de tinta em Nuremberg, nem com o diabo católico, destruidor e pouco inteligente, que se disfarça de cadela para entrar nos conventos, nem com o macaco falante que tem o espertalhão de Cervantes, na comédia dos ciúmes e das selvas de Andaluzia. Não. O duende de que falo, obscuro e estremecido, é descendente daquele alegríssimo demônio de Sócrates, mármore e sal que o arranhou indignado no dia em que tomou a cicuta, e do outro melancólico demoniozinho de Descartes, pequeno como amêndoa verde, que, farto de círculos e de linhas, saiu pelos canais para ouvir cantarem os marinheiros bêbados. Todo homem, todo artista, dirá Nietzsche, cada degrau que sobe na torre de sua perfeição é às custas da luta que trava com um duende, não com um anjo, como se diz, nem com sua musa. É preciso fazer essa distinção fundamental para a raiz da obra. O anjo guia e presenteia como São Rafael, defende e evita como São Miguel, e previne como São Gabriel. O anjo deslumbra, mas voa sobre a cabeça do homem, está acima, derrama sua graça, e o homem, sem nenhum esforço, realiza sua obra, ou sua simpatia, ou sua dança. O anjo do caminho de Damasco ou o que entrou pelas fendas do balcãozinho de Assis, ou o que segue os passos de Enrique Susson, ordena, e não há maneira de recusar suas luzes, porque agita suas asas de aço no ambiente do predestinado. A musa dita, e, em algumas ocasiões, sopra. Pode relativamente pouco, porque já está distante e tão cansada (eu a vi duas vezes) que teve que colocar meio coração de mármore. Os poetas de musa ouvem vozes e não sabem de onde elas vêm; são da musa que os alenta e às vezes os merenda. Como no caso de Apollinaire, grande poeta destruído pela horrível musa que foi pintada a seu lado pelo divino angélico Rousseau. A musa desperta a inteligência, traz paisagem de colunas e falso sabor de lauréis, e a inteligência é muitas vezes a inimiga da poesia, porque imita demasiadamente, porque eleva o poeta a um trono de agudas arestas e o faz esquecer que logo podem comê-lo as formigas ou pode cair-lhe na cabeça uma grande lagosta de arsênico, contra a qual nada podem as musas que há nos monóculos ou na rosa de tíbia laca do pequeno salão. Anjo e musa vêm de fora; o anjo dá luzes e a musa dá formas (Hesíodo aprendeu com elas). Pão de ouro ou prega de túnicas, o poeta recebe normas no bosquezinho de lauréis. Ao contrário, o duende tem que ser despertado nas últimas moradas do sangue. E rechaçar o anjo e dar um pontapé na musa, e perder o medo da fragrância de violetas que exala a poesia do século XVIII, e do grande telescópio em cujos cristais dorme a musa enferma de limites. A verdadeira luta é com o duende. Os caminhos para buscar a Deus são conhecidos, desde o modo bárbaro do eremita até o modo sutil do místico. Com uma torre como Santa Teresa, ou com três caminhos como São João da Cruz. E embora tenhamos que clamar com voz de Isaías: "Verdadeiramente és um Deus escondido", ao fim e ao cabo Deus manda ao que o busca seus primeiros espinhos de fogo. Para buscar o duende não há mapa nem exercício. Só se sabe que ele queima o sangue como uma beberagem de vidros, que esgota, que rechaça toda a doce geometria aprendida, que rompe os estilos, que faz com que Goya, mestre nos cinzas, nos pratas e nos rosas da melhor pintura inglesa, pinte com os joelhos e com os punhos com horríveis negros de betume; ou que desnuda Mosén Cinto Verdaguer com o frio dos Pirineus, ou leva Jorge Manrique a esperar a morte no páramo de Ocaña, ou veste com uma roupa verde de saltimbanco o corpo delicado de Rimbaud, ou põe olhos de peixe morto no conde Lautréamont na madrugada do boulevard. Os grandes artistas do sul da Espanha, ciganos ou flamengos, quer cantem, dancem ou toquem, sabem que não é possível nenhuma emoção sem a chegada do duende. Eles enganam as pessoas, e podem dar a sensação de duende sem que ele esteja lá, como as enganam todos os dias autores ou pintores ou modistas literários sem duende; mas basta atentar um pouco, e não se deixar levar pela indiferença, para descobrir o engodo e fazê-lo fugir com o seu tosco artifício. Uma vez, a "cantadora" andaluza Pastora Pavón, A Menina dos Pentes, sombrio gênio hispânico, equivalente em capacidade de fantasia a Goya ou a Rafael o Galo, cantava em uma pequena taberna de Cádiz. Cantava com sua voz de sombra, com sua voz de estanho fundido, com sua voz coberta de musgo, e a enredava em seus cabelos ou a molhava em camomila ou a perdia entre estevais obscuros e longínquos. Mas nada; era inútil. Os ouvintes permaneciam calados. Estava ali Ignacio Espeleta, formoso como uma tartaruga romana, a quem perguntaram uma vez: "Como não trabalhas?", e ele, com um sorriso digno de Argantônio, respondeu: "Como vou trabalhar se sou de Cádiz?" Estava ali Eloísa, a quente aristocrata, rameira de Sevilla, descendente direta de Soledad Vargas, que em trinta não quis casar com um Rothschild porque não a igualava em sangue. Estavam ali os Floridas, que as pessoas crêem carniceiros, mas que na realidade são sacerdotes milenares que continuam sacrificando touros a Gereão, e em um canto, o imponente dono de gado Don Pablo Murube, com ar de máscara cretense. Pastora Pavón terminou de cantar em meio ao silêncio. Só, e com sarcasmo, um homem pequenino, desses homenzinhos bailarinos que saem de súbito das garrafas de aguardente, disse com voz muito baixa: "Viva Paris!", como se dissesse: "Aqui não nos importam as faculdades, nem a técnica, nem a maestria. Nos importa outra coisa." Então A Menina dos Pentes levantou-se como uma louca, tronchada como uma carpideira medieval, e bebeu de um trago uma grande copo de cazalla como fogo, e sentou-se a cantar sem voz, sem alento, sem matizes, com a garganta abrasada, mas... com duende. Conseguira matar todo a estrutura da canção para dar lugar a um duende furioso e abrasador, amigo de ventos carregados de areia, que fazia com que os ouvintes rasgassem suas roupas quase com o mesmo ritmo com que as rasgam os negros antilhanos do rito, agrupados perante a imagem de Santa Bárbara. A Menina dos Pentes teve que descarregar sua voz porque sabia que estava sendo escutada por gente estranha que não pedia formas, mas tutano de formas, música pura com o corpo exíguo para poder manter-se no ar. Teve que empobrecer em faculdades e em seguranças; quer dizer, teve que afastar a musa e ficar desamparada, para que seu duende viesse e se dignasse a lutar com os braços nus. E como cantou! Sua voz já não cantava, sua voz era um jorro de sangue dignificado por sua dor e por sua sinceridade, e se abria como uma mão de dez dedos pelos pés cravados, mas cheios de borrasca, de um Cristo de Juan de Juní. A chegada do duende pressupõe sempre uma transformação radical em todas as formas sobre velhos planos, dá sensações de frescor totalmente inéditas, com uma qualidade de rosa recém criada, de milagre, que chega a produzir um entusiasmo quase religioso. Em toda música árabe, dança, canção ou elegia, a chegada do duende é saudada com enérgicos "Alá, Alá!", "Deus, Deus!", tão próximos do "Olé!" dos touros que talvez seja o mesmo; e em todos os cantos do sul da Espanha a aparição do duende é seguida por sinceros gritos de "Viva Deus!", profundo, humano, terno grito de uma comunicação com Deus por meio dos cinco sentidos, graças ao duende que agita a voz e o corpo da bailarina, evasão real e poética deste mundo, tão pura como a conseguida pelo raríssimo poeta do século XVIII Pedro Soto de Rojas através de sete jardins, ou a de João Clímaco por uma estremecido acesso de pranto. Naturalmente, quando essa evasão é alcançada todos sentem seus efeitos: o iniciado, vendo como o estilo vence uma matéria pobre, e o ignorante, no não sei quê de uma emoção autêntica. Há anos, em um concurso de baile de Jerez de la Frontera, quem ganhou o prêmio foi uma velha de oitenta anos, contra formosas mulheres e meninas com a cintura de água, pelo simples fato de levantar os braços, erguer a cabeça e dar um golpe com o pé sobre o tablado; mas na reunião de musas e de anjos que havia ali, belezas de forma e belezas de sorriso, tinha que ganhar e ganhou aquele duende moribundo que arrastava pelo chão suas asas de facas oxidadas. Todas as artes são capazes de duende, mas onde ele encontra maior campo, como é natural, é na música, na dança e na poesia falada, já que elas necessitam de um corpo vivo que interprete, porque são formas que nascem e morrem de modo perpétuo e alçam seus contornos sobre um presente exato. Muitas vezes o duende do músico passa para o duende do intérprete, e outras vezes, quando o músico ou o poeta não são tais, o duende do intérprete, e isto é interessante, cria uma nova maravilha que tem na aparência, e nada mais, a forma primitiva. Este é o caso da enduendada Eleonora Duse, que buscava obras fracassadas para fazê-las triunfar, graças ao que ela inventava, ou o caso de Paganini, descrito por Goethe, que fazia com que se ouvisse melodias profundas em verdadeiras vulgaridades, ou o caso de uma deliciosa garota do Porto de Santa Maria, que vi cantar e dançar a horrorosa canção italiana O Mari!, com uns ritmos, uns silêncios e uma intenção que faziam da bugiganga italiana uma dura serpente de ouro puro. O que acontece é que eles encontravam efetivamente alguma coisa nova, que não tinha nada a ver com a anterior, que punham sangue vivo e ciência em corpos vazios de expressão. Todas as artes, e também os países, têm capacidade de duende, de anjo e de musa; e assim como a Alemanha tem, com exceções, musa, e a Itália tem permanentemente anjo, a Espanha é em todos os tempos movida pelo duende, como país de música e dança milenares, onde o duende espreme limões de madrugada, e como país de morte, como país aberto à morte. Em todos os países a morte é um fim. Ela chega e fecham-se as cortinas. Na Espanha, não. Na Espanha elas são abertas. Muita gente vive ali entre suas paredes até o dia em que morre e é colocada ao sol. Um morto na Espanha está mais vivo como morto que em qualquer lugar do mundo: fere seu perfil como um fio de uma navalha bárbara. O chiste sobre a morte e sua contemplação silenciosa são familiares aos espanhóis. Desde O sonho das caveiras, de Quevedo, até o Bispo apodrecido, de Valdés Leal, e desde a Marbella do século XVII, morta de parto na metade do caminho, que diz: La sangre de mis entrañas ao jovem moço de Salamanca, morto pelo touro, que clama Amigos, que yo me muero; há uma balaustrada de flores de salitre, de onde assoma um povo de contempladores da morte, com versículos de Jeremias em seu lado mais áspero, ou com cipreste fragrante pelo lado mais lírico; mas um país onde o mais importante de tudo tem um último valor metálico de morte. A faca e a roda do carro, e a navalha e as barbas pontudas dos pastores, e a lua despida, e a mosca, e as despensas úmidas, e os destroços, e os santos cobertos de renda, e a cal, e a linha cortante dos alpendres e dos mirantes têm na Espanha diminutas ervas de morte, alusões e vozes perceptíveis para um espírito alerta, que nos traz à memória o ar rígido de nosso próprio trânsito. Não é casualidade toda a arte espanhola ligada à nossa terra, cheia de cardos e de pedras definitivas, não é um exemplo isolado a lamentação de Pleberio ou as danças do maestro Josef María de Valdivielso, não é um acaso que de toda balada européia se destaque esta amada espanhola: - Si tu eres mi linda amiga, Nem é estranho que nos alvoreceres de nossa lírica soe esta canção: Dentro del vergel As cabeças geladas pela lua que Zurbarán pintou, o amarelo manteiga com o amarelo relâmpago de El Greco, o relato do padre Sigüenza, a obra inteira de Goya, a abside da igreja de El Escorial, toda a escultura policromada, a cripta dos Benavente em Medina de Rioseco, equivalem no culto às romarias de San Andrés de Teixido, onde os mortos tomam lugar na procissão, aos cantos fúnebres que cantam as mulheres de Astúrias com lanternas cheias de chamas na noite de novembro, ao canto e à dança da Sibila nas catedrais de Mallorca e Toledo, ao obscuro In Recort tortosino e aos inumeráveis ritos da Sexta-Feira Santa, que com a cultíssima festa dos touros formam o triunfo popular da morte espanhola. No mundo, somente o México pode ombrear com meu país. Quando a musa vê a morte chegar fecha a porta ou ergue um plinto ou passeia uma urna e escreve um epitáfio com mão de cera, mas em seguida começa a rasgar seu laurel com um silêncio que vacila entre duas brisas. Sob o arco truncado da ode, ela junto com sentido fúnebre as flores exatas que pintaram os italianos do século XV e chama o seguro galo de Lucrécio para que espante sombras imprevistas. Quando vê chegar a morte, o anjo voa em círculos lentos e tece com lágrimas de gelo e narciso a elegia que vimos tremer nas mãos de Keats, e nas de Villasandino, e nas de Herrera, e nas de Bécquer e nas de Juan Ramón Jiménez. Mas que horror o do anjo ao sentir uma aranha, por menor que ela seja, sobre seu terno pé rosado! Ao contrário, o duende não chega se não vê possibilidade de morte, se não sabe que ela há de rondar sua casa, se não tem segurança de que há de balançar esses ramos que todos carregamos e que não têm, que não terão consolo. Com idéia, com som ou com gesto, o duende gosta das bordas do poço em franca luta com o criador. Anjo e musa escapam com violino ou compasso, e o duende fere, e na cura dessa ferida, que não se fecha nunca, está o insólito, o inventado da obra de um homem. A virtude mágica do poema consiste em estar sempre enduendado para batizar com água obscura a todos os que o vêem, porque com duende é mais fácil amar, compreender, e é certeza ser amado, ser compreendido, e essa luta pela expressão e pela comunicação da expressão adquire às vezes, em poesia, caracteres mortais. Recordai o caso da flamenguíssima e enduendada Santa Teresa, flamenga não por dominar um touro furioso e dar-lhe três passes magníficos; não por enfrentar frei Juan de la Miseria nem por dar uma bofetada no Núncio de Sua Santidade, mas por ser uma das poucas criaturas cujo duende (não anjo, porque o anjo não ataca nunca) a transpassa com um dardo, querendo matá-la por ter roubado seu último segredo, a ponte sutil que une os cinco sentidos com esse centro em carne viva, em nuvem viva, em mar vivo, do Amor libertado do Tempo. Valentíssima vencedora do duende, e um caso oposto ao de Felipe da áustria, que, ansiando buscar musa e anjo na teologia, viu-se aprisionado pelo duende dos ardores frios nessa obra de El Escorial, onde a geometria ombreia com o sonho e onde o duende põe máscara de musa para eterno castigo do grande rei.
Na Espanha (como nos povos do Oriente, onde a dança é expressão religiosa) o duende tem um campo sem limites nos corpos das bailarinas de Cádiz, elogiadas por Marçal, nos peitos dos que cantam, elogiados por Juvenal, e em toda a liturgia dos touros, autêntico drama religioso onde, da mesma maneira que na missa, se adora e se sacrifica a um Deus. É como se todos os duendes do mundo clássico se juntassem nessa festa perfeita, expoente da cultura e da grande sensibilidade de um povo que descobre no homem suas melhores iras, suas melhores bílis e seu melhor pranto. Nem no baile espanhol nem nos touros alguém se diverte; o duende se encarrega de fazer sofrer através do drama, em formas vivas, e prepara as escadas para uma evasão da realidade que circunda. O duende opera sobre o corpo da bailarina como o vento sobre a areia. Transforma com mágico poder uma garota em paralítica da lua, ou enche de rubores adolescentes um velho roto que pede esmola pelas tendas de vinho, dá aos cabelos um cheiro de porto noturno, e em todo momento opera sobre os braços com expressões que são mães da dança de todos os tempos. E é impossível que ele se repita, isso é muito interessante de sublinhar. O duende não se repete, como não se repetem as formas do mar na tempestade.
O touro tem sua órbita: o toureiro, a sua, e entre órbita e órbita um ponto de perigo onde está o vértice do terrível jogo. Pode-se ter musa com muleta e anjo com bandeirinhas e passar por bom toureiro, mas na faina de capa, com o touro limpo ainda de feridas, e no momento de matar, necessita-se da ajuda do duende para acertar no cravo da verdade artística. O toureiro que assusta o público na praça por sua temeridade não toureia, mas encontra-se neste plano ridículo, ao alcance de qualquer homem, de jogar com a vida; ao contrário, o toureiro mordido pelo duende dá uma lição de música pitagórica e faz esquecer que arrisca constantemente o coração sobre os cornos. Lagartijo com seu duende romano, Joselito com seu duende judeu, Belmonte com seu duende barroco e Cagancho com seu duende cigano, ensinam, desde o crepúsculo do anel, a poetas, pintores e músicos, quatro grandes caminhos da tradição espanhola. A Espanha é o único país onde a morte é o espetáculo nacional, onde a morte toca longos clarins à chegada das primaveras, e sua arte está sempre regida por um duende agudo que lhe dá sua diferença e sua qualidade de invenção. O duende que enche de sangue, pela primeira vez na escultura, as faces dos santos do mestre Mateo de Compostela, é o mesmo que faz São João da Cruz gemer ou queima ninfas nuas com os sonetos religiosos de Lope. O duende que levanta a torre de Sahagún ou trabalha ladrilhos quentes em Calatayud ou Teruel é o mesmo que rasga as nuvens de El Greco e põe a rodar a pontapés os aguazis de Quevedo e as quimeras de Goya. Quando chove faz surgir Velázquez enduendado, em segredo, por trás de seus cinzas monárquicos; quando neva faz Herrera sair nu para demonstrar que o frio não mata; quando arde, põe em suas chamas Berruguete e o faz inventar um novo espaço para a escultura. A musa de Góngora e o anjo de Garcilaso hão de soltar a guirlanda de laurel quando passa o duende de São João da Cruz, quando el ciervo vulnerado A musa de Gonzalo de Berceo e o anjo do Arcipreste de Hita devem separar-se para dar lugar a Jorge Manrique, quando chega ferido de morte às portas do castelo de Belmonte. A musa de Gregoria Hernández e o anjo de José de Mora devem separar-se para que cruze o duende que chora lágrimas de sangue de Mena e o duende com cabeça de touro de Martínez Montañes, como a melancólica musa da Cataluña e o anjo molhado de Galicia olham, com amoroso assombro, o duende de Castilla, tão distante do pão quente e da dulcíssima vaca que pasta com normas de céu varrido e terra seca. Duende de Quevedo e duende de Cervantes, com verdes anêmonas de fósforo um, e flores de gesso de Ruidera o outro, coroam o retábulo do duende da Espanha. Cada arte tem, como é natural, um duende de modo e forma distintos, mas todas unem suas raízes em um ponto de onde manam os sons negros de Manuel Torres, matéria última e fundo comum incontrolável e estremecido de lenho, som, tela e vocábulo. Sons negros por trás dos quais estão já em terna intimidade os vulcões, as formigas, os zéfiros e a grande noite apertando a cintura com a Via Láctea. Senhoras e senhores; ergui três arcos e com mão torpe coloquei neles a musa, o anjo e o duende. A musa permanece quieta; pode ter a túnica de pequenas pregas ou os olhos de vaca que miram em Pompéia o narizinho de quatro caras com que seu grande amigo Picasso a pintou. O anjo pode agitar cabelos de Antonello de Mesina, túnica de Lippi e violino de Massolino ou de Rousseau. O duende... Onde está o duende? Pelo arco vazio entra um ar mental que sopra com insistências sobre as cabeças dos mortos, em busca de novas paisagens e acentos ignorados; um ar com cheiro de saliva de menino, de erva pisada e véu de medusa que anuncia o constante batismo das coisas recém criadas. Notas (1) O sangue de minhas entranhas (2) Amigos, estou morrendo; (3) - Se tu és minha linda amiga, (4) Dentro do vergel (5) o cervo ferido
In Federico García Lorca. Obras Completas. Ed. Aguillar. Tradução: Roberto Mallet. ![]() |
Tiffany (detalhe)


Fotografias:Mario Cravo
►Europa sofre retrocesso no acesso livre à internet
►Costa-Gavras: "A América-Latina está se libertando dos EUA"
Adversário de Chávez frustra senadores tucanos
Lula, 64: quem quiser me vencer vai ter que trabalhar mais
Colômbia descarta levar ao Congresso acordo militar com EUA
Honduras: Juíz ameaça deter candidato que boicote pleito golpista
Resistência: Asterix completa 50 anos em plena forma
"O Brasil tem governo demais e oposição de menos", sentencia Miriam Leitão no Globo. Qual fürher de saias, ela espinafra a oposição convencional, deixando claro quem está no comando. Pergunta a Miriam: e o PIG, está com essa bola toda?
Duayer - a poesia do olhar
...em poesia, a tensão resulta, principalmente, da fome de realidades espirituais ignoradas, mas pressentidas como possíveis.
Cesare Pavese
O poeta Alexandre Beanes, diz: "há que se agarrar a primavera com os dentes. Captando o banal, investigando as dobras do referencial e revelando a poesia dos detalhes, vãos, instantes que passariam despercebidos, o transitório e o efêmero, o artista confere um sentido especial ao denotativo, à mensagem informativa."
Falando sobre crônicas, Jorge de Sá explica que “até as reportagens – quando escritas por um jornalista de fôlego – exploram a função poética da linguagem, bem como o silêncio em que se escondem as verdadeiras significações daquilo que foi verbalizado, (...) pois o artista que deseje cumprir sua função primordial de antena de seu povo, [capta] tudo aquilo que nós outros não estamos aparelhados para depreender, (...) descortinando para o público uma paisagem até então obscurecida ou ignorada por completo”.
Através de palavras ou imagens, o jornalista-repórter-artista capta o que a pressa nos impediu de ver, o que a recorrência escondeu, o que a nossa sensibilidade deixou de perceber. Impregnando de encantamento o observado, é ele quem revela as faces inusitadas de um cotidiano ao qual já nos acostumamos, ao qual já não atribuímos importância ou magia. Sem abrir mão do vínculo com a realidade, a crônica, nas palavras de Rogério Menezes, “se apropria da realidade do cotidiano, como o jornalismo factual, mas procura ir além e mostrar o que está por trás das aparências”
Texto: Duayer - a poesia do olhar
de: Ivy Judensnaider
Duayer é brasileiro de Tombos (MG). Seu percurso profissional inclui treze anos no Pasquim, publicações nas revistas mais conceituadas do país, três livros individuais e participação em cinco livros coletivos, inclusive na Alemanha e na França.
Veja a Exposição Virtual “Objetos e Pessoas”, de Duayer, com fotografias digitais feitas com celular. (arscientia)
Domingo, Outubro 25, 2009
SCHERZO
é o pássaro que em mim baila
seu allegro, scherzando
celebrando a infinitude azul
Mas quando tudo se adensa
é a fera lenta que rasteja
as notas solitárias de um violoncelo
fremindo as guelras do silêncio
♪
"Duas almas vivem aqui no meu peito,
uma querendo separar-se da outra:
uma se agarra, em sensual enleio
e com seus órgãos feito âncoras, ao mundo;
a outra se ergue do pó às alturas antiquíssimas."
Fausto / Noite, I. Wolfgang Goethe.
@»♥º¤ø ,¸¸ ♥«¤ø ¤º
Menna Barreto
Menna Barreto
Menna Barreto
Menna Barreto
Menna Barreto
Menna Barreto
Menna Barreto
Menna Barreto
Menna Barreto@»♥º¤ø ,¸¸ ♥«¤ø ¤º
«Cuadros de viaje» (fragmento)
«La vida y el mundo son el sueño de un dios ebrio, que escapa silencioso del banquete divino y se va a dormir a una estrella solitaria, ignorando que crea cuanto sueña... Y las imágenes de ese sueño se presentan, ahora con una abigarrada extravagancia, ahora armoniosas y razonables... La Ilíada, Platón, la batalla de Maratón, la Venus de Médicis, el Munster de Estrasburgo, la Revolución Francesa, Hegel, los barcos de vapor, son pensamientos desprendidos de ese largo sueño. Pero un día el dios despertará frotándose los ojos adormilados y sonreirá, y nuestro mundo se hundirá en la nada sin haber existido jamás.»
William Butler Yeats
(Dublin, Irlanda 1865- 1939)
La fascinación por lo difícil
La fascinación de lo difícil
Ha secado la savia de mis venas
sustrayendo la alegría y el natural contento
de mi corazón. Hay algo que daña nuestro potro
Para que tenga, como si no tuviese sangre sagrada
Ni hubiese saltado en el Olimpo de una nube a otra,
Que estremecerse bajo el látigo, las dificultades, el sudor y el sobresalto
Como si arrastrase un carro gravero. Malditas sean las obras teatrales
Que hay que montar de cincuenta maneras,
La guerra diaria contra cada bribón y memo,
El negocio teatral, la dirección de los hombres.
Prometo que antes que vuelva a llegar el alba
Daré con el establo y sacaré el pestillo.
(De "The Green Helmet and Other Poems", 1910 )
(Lyon, 1926)
«Orden del Día»
Mantener el alma en estado de marcha,
mantener el contingente a distancia,
mantener el alma por sobre la refriega,
mantener a Dios como una idea cualquiera,
un apoyo, una eventualidad,
una comarca salvaje del universo poético,
mantener las promesas de la infancia,
mantener a raya la adversidad,
no dar cuartel al adversario,
mantener la palabra abierta,
hacer pagar caro a sus debilidades,
no dejarse arrastrar por la corriente,
mantener su rango en el rango de aquellos
que están decididos a mantener al hombre
en posición estimable,
no dejarse seducir por lo fácil
bajo el pretexto de que los peores
se elevan cómodamente al más alto nivel mientras
los mejores difícilmente mantienen el camino,
ser digno del privilegio de ser
bajo la forma más lograda: el hombre.
O mejor aún, la mujer.












A presente crise do sistema capitalista “exige uma mudança de estratégia e uma mudança da modalidade de dominação que abarca todas as dimensões da organização social, territorial e política do sistema, sobretudo porque a necessidade das condições gerais de valorização correspondente aos momentos de ajustamento cíclico, característicos do regular funcionamento do processo de acumulação do capital, ocorre agora num momento de questionamento integral da crise sistémica, da incapacidade de resolver internamente a contradição progresso-depradação criada nos próprios fundamentos da sociedade capitalista como lugar de domínio da natureza pelo homem.
Depois de analisar a teia do Médio Oriente que Obama complicou, o autor interroga-se:
















![[lorca-assinatura.gif]](http://3.bp.blogspot.com/_Xk7uDiUkyyA/SKn4jUT-jAI/AAAAAAAABds/dJwGvFFkgvk/s1600/lorca-assinatura.gif)


